Um salvo-conduto antecipado

  Se não fosse a obrigação de permanecer em silêncio e aplaudir qualquer piadinha sem graça do governador Roberto Requião uma vez por semana na Escolinha de Governo, os 32 melhores empregos do serviço público do País seriam todos no Paraná. Não existe, com toda certeza, uma atividade tão tranqüila e tão bem remunerada do que a de secretário de Estado do atual Governo. A começar pelo fato da própria remuneração: ninguém sabe quanto ganha exatamente um alto funcionário do Governo Requião porque só perguntar já é considerado uma ofensa.
  Além do salário secreto, que é o menor dos pecados, a equipe de Governo, quase em sua totalidade há 4 anos e 2 meses e meio no poder, não tem qualquer compromisso com projetos e planos de gestão, atividade primeira de quem opta por cargos de liderança no serviço público. E neste quesito, nem pode ser responsabilizada. Afinal, tal postura foi duramente aprendida nos últimos quatro anos de convivência: quem está no comando absoluto do Palácio Iguaçu se julga um administrador tão bem preparado, e quiçá tão genial, que prescinde de qualquer projeto alheio ou mesmo uma simples sugestão de subordinados em geral. De soluções financeiras e jurídicas, passando por segurança e meio ambiente, Roberto Requião entende de tudo no Paraná e a tudo controla. Ora, por que então que seus 32 (ou seriam 34?) secretários (o maior número do País em governos estaduais) iriam se preocupar em trabalhar e criar projetos se o pacote está pronto e acabado na sede do Governo? Para correr o risco de serem criticados e até humilhados em público pela língua incontrolável do Governador? Comigo não, Requião!
  E como bem dizia a vó Maria, cabeça vazia, oficina do diabo. Sem ter muito o que fazer, a equipe de Governo passa a se preocupar em como tornar mais lucrativa a atividade pública diária. Daí que, da Sanepar ao Porto de Paranaguá, da Cohapar à Ceasa, passando pela secretaria de Educação e até suspeitas de golpes de falsos seqüestros originados na Central da PM, as notícias diárias apontam um governo cada vez mais envolvido na contratação de parentes, no aumento exagerado dos próprios salários, em pequenas e grandes negociatas. Grupos, para não usar denominação mais direta, disputam abertamente espaços e se degladiam em plena luz do dia para mostrar quem tem a força. Enquanto isso, o governador Roberto Requião monta seu picadeiro todas as terças-feiras numa sala de espetáculos com ar-condicionado no belo Museu Niemayer e, ao invés de cobrar explicações da própria equipe de Governo, levanta a velhíssima história de um complô da imprensa contra a administração dele. Nem vamos repetir aqui os palavrões usados pelo Governador quando se refere a jornalistas, com biografias à prova de qualquer suspeição, porque a liturgia do maior cargo político do Paraná merece um mínimo de respeito. Para a imprensa local e nacional, a falta de educação de governantes pode ser colocada naquela seção de ossos do ofício que acomete circunstancialmente qualquer atividade.
  O grave, no caso, é que ao transformar a imprensa no inimigo da hora (depois do neoliberalismo, do lucro, do pedágio, da transgenia, do agronegócio, etc, etc, etc), o governador Requião prejustifica qualquer ação dele e, por conseguinte, da própria equipe, dá um salvo-conduto a cada secretário para deslizes de todos os tamanhos porque, ao final das contas, sempre vai haver a desculpa de um ‘‘inimigo agindo às ocultas’’. Qualquer denúncia levantada hoje pela imprensa do Paraná cai no vazio quando deveria ser o início de investigações e apuração dos fatos, mesmo quando motivada apenas para fustigar ou desestabilizar a figura do Governador. Estamos falando do exercício democrático de governar, Gente, onde a oposição e a imprensa fiscalizam, levantam os fatos, cobram soluções e o poder executivo reage. Com uma Assembléia Legislativa cordata, um Tribunal de Contas mais do que amigo e uma imprensa transformada no capeta, o exercício democrático de governar se resume num Governador falando sozinho.
  Na conclusão da história, a equipe de Governo de Roberto Requião, salvo raríssimas exceções, atua ao léu, é bem paga e não tem nenhum compromisso com a função básica pela qual existe: esforçar-se para melhorar a vida de todos os paranaenses. Os resultados estão aí para quem quiser ver.

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