RUTH BOLOGNESE
O jornalista norte americano, David Hemnick, correspondente da revista The New Yorker na União Soviética na era Gorbachev conta que a censura imposta pelos longos anos do comunismo levou a um novo tipo de jornalismo, às avessas, onde a história era notícia de primeira mão. E assim os jornais publicavam em grandes manchetes fatos ocorridos há 50 até 70 anos atrás, que ora apavoravam, ora chocavam e sempre surpreendiam a população, como se fosse a revelação da hora.
Por aqui, mesmo nos tempos on line da Internet acontece algo semelhante, guardadas as devidas proporções e em outra direção, na verdade. Não há censura, tudo se escancara, as maiores denúncias vêm à tona, escandalizam meio mundo e desaparecem. Muito tempo depois, retornam, e aí a surpresa não é mais pelo fato em si, mas porque nada aconteceu, não houve punição alguma e tanto os personagens como seus atos persistem, pior, muito mais gente se envolveu e a vida continua.
Logo no início da minha atividade como jornalista em Curitiba, a sucursal do jornal O Estado de São Paulo fez um grande levantamento na Assembléia Legislativa e denunciou os fantasmas da Casa, uma longa lista de apadrinhados que continha parentes, mulheres e amigos de deputados, jornalistas e o escambau a receber o soldo mensal sem sequer dar as caras no trabalho de vez em quando. Foi um grande escândalo, com as habituais cópias se espalhando pra todo lado e gente envergonhada querendo se esconder da imprensa. De lá pra cá e se vão quase 30 anos, a cada seis meses pelo menos, algum jornal decide denunciar parentes ou apadrinhados nos órgãos públicos do Paraná. É sempre um pequeno-grande escândalo, mas já não causa furor algum.
Nesta semana, a publicação de alguns nomes de parentes de conselheiros, presidentes e ex-presidentes do Tribunal de Contas do Paraná levou um leitor de Guarapuava a protestar com veemência a favor do deputado Artagão de Mattos Leão Junior, a quem defendia e exigia da jornalista uma retratação imediata no mesmo tom irônico, palavras dele. Sabe que me deu um dó sem tamanho do leitor? Respondi orientando para que ele procurasse na lista de Recursos Humanos do TCE que ia encontrar não apenas o nome do deputado Junior, assim como da mulher dele, Danielle Gonini, ambos muito bem empregados naquele órgão. Recebi um pedido de desculpas.
É exemplar isto. Depois de tantos anos, fica difícil acreditar que deputados ainda se mantenham como funcionários do Tribunal de Contas, justamente a instituição que tem como dever de ofício fiscalizar as contas públicas. Não é um absurdo? É. A lista de nomes que pretendo publicar, um por vez, na série As Grandes Famílias do PR não é nenhum segredo de Estado a exigir um grande esforço de reportagem e investigação. Está aí, à vista de todos, nos respectivos departamentos de recursos humanos de todos os órgãos públicos paranaenses, com seus sobrenomes conhecidos e tradicionais, a começar no primeiro escalão do governo.
O nepotismo no Paraná, com raríssimas exceções de funcionários públicos que cumprem seu dever, é um escândalo que, de tão corriqueiro, banalizou-se. Filhas e filhos de ex-governadores, de donos de jornais, de deputados e ex-deputados vivem às custas do erário sem sequer aparecer no serviço. E alguém acha aí que ganham pouco? Alguns salários, minha gente, chegam a R$10 mil reais.
Se na nova União Soviética a história ainda é notícia, aqui a notícia virou história. E os parentes se beneficiam a tanto tempo da infração que consideram ofensa quando alguém ousa lembrar da ilegalidade.
Daí que, na contramão dos manuais de jornalismo, vamos em frente com esta notícia velhíssima da contratação de parentes no sistema público do Paraná: se indignar, eventualmente, apenas o leitor de Guarapuava e um outro de Barracão, já é dever cumprido.
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