RUTH BOLOGNESE
Que atire a primeira pedra quem nunca teve vontade de trocar de mulher, de marido, de filho, de religião, até de pai e mãe.O mestre Millor Fernandes concluiu, há um tempo, que duas únicas áreas são pétreas nesta vida: ele diz que nunca viu gay (o termo era outro) deixar de ser gay, nem um corrupto virar honesto fato que, segundo Millor, comprova as vantagens decorrentes de ambas as atividades. Nos dois casos, nenhuma troca, além das explícitas. Outra área com índice de mudança beirando zero é a opção por um time de futebol. Mas aí é terreno passional, não analítico.
No geral, mudar faz bem. Melhora a pele (se o amor for bem mais jovem ou o cirurgião de mão boa), a vida (se a casa for confortável) e até a fé (se a religião for mais convincente).
Na política, que é nossa opção preferencial de assunto, mudar também pode ser interessante. É raro encontrar no Brasil um político que se mantenha fiel ao seu partido de origem, a não ser, é claro, aqueles que simplesmente estão presos à sigla, ou com ela, como o Delúbio Soares e o PT. Ou são donos, como o popular Enéas e seu Prona. E partidos políticos no Brasil se mesclam tanto, se confundem tanto que hoje, sinceramente, para o eleitor tanto faz, como tanto fez.
A mudança de rumo
O que ainda continua surpreendendo, mesmo numa área tão maleável como a política, é a mudança não mais ideológica, mas da opinião formada. Políticos em geral tem opinião formada sobre quase tudo. É característica do metiê, até porque a ação principal da política é convencer os outros, os eleitores, que o ponto de vista, a opinião sobre o futuro do município, do estado, do País, é melhor e mais precisa do que a do adversário.
E é aí que a mudança tem limite. Não se pode, de repente, usar todas as posturas e tiques de almanaque adquiridos ao longo de anos e anos para defender as teses de um grupo e simplesmente transportá-las para outro grupo. Vejam o caso, emblemático no Paraná, do deputado Rafael Greca. Ele passou a vida inteira com uma opinião clara, e absolutamente contra, tudo o que o grupo do governador Roberto Requião fazia ou dizia no Paraná. Em nome de Jaime Lerner e seu grupo rebatia, rebatia e rebatia. E, de um dia para o outro, Rafael Greca mudou de malas e bagagens para a banda Requião. Na travessia, perdeu o maior patrimônio, a credibilidade. De prefeito de Curitiba muitíssimo bem votado, não conseguiu se eleger deputado estadual nesta última eleição. É desprezado pelo grupo de Lerner e dependente do grupo de Requião. Greca chegou a tal situação não porque mudou de partido, mas porque mudou sua própria opinião.
Agora, vemos aí o senador Osmar Dias diante do canto da sereia para se transformar em ministro da Agricultura do Governo Lula. Neste caso, nem mudança de partido é, porque Osmar continua no PDT, que o indicou para o cargo. O ministério é antigo sonho do agrônomo do passado e fazendeiro do presente e, depois de uma derrota sofrida no Paraná, seria um grande prêmio de consolação.
Mas, se figurar na fotografia ministerial do PT, Osmar Dias muda radicalmente de opinião. Abandona a posição de um dos senadores mais críticos da política agrícola do Governo, que passou os últimos quatro anos reproduzindo a queixa permanente do agronegócio brasileiro contra o câmbio, a taxa de juros, o avanço do MST, etc, etc. e passa para a trincheira adversária. Nem vale aqui a pergunta salvadora: mudou o Governo ou mudou Osmar Dias? O PT está aí, minha gente, reeleito com todas as pompas. Vai mudar de postura, justamente no agronegócio?
Repete-se a história de Greca e, de novo, o golpe fatal na credibilidade. A simples especulação em torno do nome do senador Osmar Dias para o ministério de Lula já lhe é desfavorável e deveria ser contida. Se trocar a crítica pelo cargo, ou pior, a opinião formada pelo sonho, coloca o futuro político na corda bamba.
Bem, a bela e produtiva fazenda de Tocantins, a Lagoa da Prata, está aí pra isso mesmo. É reserva técnica no caso de uma mudança de planos de vida.





