Na quinta-feira a mais bela cidade do Brasil acordou sitiada. Os tarefeiros do tráfico organizado queimaram homens e mulheres dentro dos ônibus e atiraram em crianças nas ruas. Na espiral do terror, eis aí a última volta antes da barbárie total.
  E o resto do dia foi para contar os mortos e as histórias dos mortos.
  Diante da tragédia carioca, Brasília silenciou. Às vésperas da segunda posse, o presidente Lula lançou um problema protocolar para os organizadores da grande festa: no passeio de Rolls-Royce entre a Catedral de Brasília e o Palácio do Planalto, o presidente decidiu reservar o lugar da carona, tradicionalmente destinado ao vice, para a silenciosa mulher que o acompanha sempre, Marisa Letícia. Prova de singelo amor de marido, homenagem familiar que mudou todo o cronometrado planejamento do roteiro cívico mais importante da Capital Federal. Diante da nova ordem, a partir do vice, José Alencar, todos os outros lugares deveriam ser ocupados por mulheres das demais autoridades ao redor do casal presidencial.
  Lula encontrou, enfim, um lugar de destaque para Marisa Letícia e Brasília foi dormir em paz.
  Sobre os 19 mortos da cidade sitiada, nenhuma palavra do presidente, nem de ninguém próximo a ele. O ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos, que costuma aparecer nos graves momentos republicanos por força do papel que representa, descansava em algum lugar do Guarujá, a milhares de quilômetros de Brasília.
  A título de justificativa para tamanha indiferença não se pode nem alegar o elemento surpresa, aquele instante de bobeira que acometeu o presidente Bush ao saber da tragédia do World Trade Center. O governo brasileiro viu a maior cidade do País, São Paulo, ser dominada pelo PCC, há poucos meses. Da maior cidade para a mais bonita, e o comando bandido até avisou antes. Foi a própria tragédia anunciada.
  Se alguém não notou ainda, é preciso reavivar a memória: o presidente Lula reelegeu-se sem apresentar à nação um projeto, sequer uma proposta, de combate à violência no Brasil. Não se comprometeu, nem prometeu, portanto, reduzir o medo que avança porta adentro dos brasileiros, tanto ricos, como remediados e até os mais pobres, tão caros ao Presidente. Ou a vendedora ambulante que morreu protegendo das balas o filho de 6 anos, no centro do Rio, era lá uma integrante da elite tupiniquim?
  Ora, pela lógica da política brasileira, se não houve promessa, não há compromisso. E, pela mesma lógica, significa que traficantes podem jogar gasolina num ônibus de Cachoeiro do Itapemirim que levava homens, mulheres e crianças para São Paulo, riscar um fósforo e pronto? Dezenove mortos é número suficiente para que o Presidente deixe o lugar de Marisa Letícia de lado e, pelo menos, se manifeste?
  Ninguém, a não ser o pessoal do PCC e Cia, quer estragar a festa da segunda posse presidencial. É momento de rara alegria para um homem, principalmente para um homem que faz da primeira desvantagem, ter nascido no grotão pernambucano, o mote para a conquista de corações e mentes brasileiras.
  Mas antes da posse, vem a realidade e a realidade violenta exigia, na quinta-feira, uma postura de governo muito além do lugar da primeira-dama no carro presidencial. A isso pode se chamar de indiferença, quase uma rejeição, aos problemas brasileiros, situação muito mais grave quando se inicia um governo reeleito.
  Pelo silêncio do Palácio do Planalto diante da cidade do Rio de Janeiro sitiada por bandidos, o presidente garantiu a tranqüilidade da posse no Primeiro do Ano. Com dona Marisa Letícia sentada no lugar de honra, ao lado dele, nada há de atrapalhar a festa.
  Lula estará no auge da felicidade. O Brasil, nem tanto. E o Rio, muito menos.

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