Eleitos sem Povo
  Dezembro é o tempo de caça aos postos de grande importância na composição do poder no Estado que, mal comparando, se parece com aquelas tevês pra cachorro: o povo pode olhar e babar, mas sabe que não tem qualquer influência no processo e, muito menos, no resultado final.
  Eleições para a mesa da Assembléia Legislativa, Tribunal de Justiça e Tribunal de Contas acontecem entre quatro paredes e obedecem a um ritual próprio, muito mais afeito aos interesses internos, ou melhor, aos jogos de influência acumulados por candidatos e grupos, do que a uma pseudo-representatividade política ou popular. Nem vamos falar aqui de liderança, competência, experiência, preparo para a função etc. etc., que aí começa a zona do agrião, pantanosa e enganosa.

Assembléia Legislativa
  Na Assembléia Legislativa, por exemplo, a eleição para a presidência da Casa do Povo tem tudo, menos a ver com Povo. Quem viveu nos anos Aníbal Khouri, sabe do que se trata. Ali o jogo é bruto e quando não tem o comando firme do Palácio Iguaçu, tem a firme influência do Palácio Iguaçu. Independência do Poder Legislativo no Paraná é tal e qual o ponto cego do tráfego aéreo na região: existe, de fato, mas só de pensar em passar por perto arrepia até a raiz dos cabelos da maioria dos deputados. E quem tentou exercê-la foi, mas não voltou pra contar a história.

Tribunal de Justiça
  No Tribunal de Justiça, ao contrário da Assembléia, que escancara a disputa, a campanha para a eleição do novo presidente, com três candidatos fortes, foi mais discreta do que consulta médica de freira. E como sempre acontece em processos fechados, informação que vaza tem baixaria. Um entrevero entre um desembargador que veio do Alçada e um médico, com gritos e ameaças de sopapos, atrapalhou uma das candidaturas e foi fundamental, garantem os mais próximos, na escolha do novo presidente nesta sexta-feira. Tem sentido uma conversa destas envolver um dos três pilares institucionais do Paraná?

Tribunal de Contas
  E, finalmente, chegamos à eleição do presidente do Tribunal de Contas do Paraná, em sistema de rodízio entre os sete conselheiros, por acordo inter
pares e que não provocou surpresa nenhuma. Até o cabelo do escolhido, Nestor Batista, continua no mesmo estilo chanel, só que agora mais branco. Como órgão auxiliar da Assembléia, função que, quando lembrada, o TC odeeeeeia, a eleição no pequeno órgão deveria se ater à substituição técnica pura e simples. Mas chama a atenção porque é o TC, né, onde prefeituras, câmaras, governo e entidades públicas afins têm que bater ponto com as respectivas prestações de contas. E, na grande maioria das vezes, a aprovação dos gastos públicos é mais demorada e complexa do que separação litigiosa de casal com posses. Só que com menos emoção e mais propensa a acordos.
  São eleições só entre eles, minha Gente. E mesmo que nos digam respeito, está aí a tevê pra Cachorro. Só vale observar.

Quando se vai além do Humano
  ‘‘Aceita tudo o que te acontece, o belo e o terrível. Nenhum sentimento é estranho demais’’, dizia o poeta alemão Rainer Maria Rilke. Mas a semana trouxe os detalhes daquele crime de Bragança Paulista e não se pode deixar de perguntar: o que leva uma pessoa a colocar fogo num carro com uma família amarrada dentro e um menino de cinco anos junto? O nome disso não é, absolutamente, violência urbana. A violência urbana é o PCC comandando hordas de assassinos fora das prisões. Ou assaltos à mão armada durante a luz do dia. O que aconteceu em Bragança Paulista deve ter outro nome.
  A freqüência de crimes hediondos, onde filha mata os pais, um menor comanda uma barbárie contra um casal de adolescentes, ambos em São Paulo, ou uma jovem mulher impede passageiros de sair de um ônibus em chamas, no Rio, mostra que a sociedade brasileira está gerando pessoas desfiguradas de qualquer humanidade. O difícil é imaginar para onde caminhamos.

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