A política cordial e José Janene
  Duas circunstâncias, todo mundo sabe, salvaram na última hora o principal operador do mensalão, o deputado paranaense José Janene: o coração grande demais, por isso frágil demais, e a própria função a que vinha se dedicando no governo ‘‘ético’’ do PT, a distribuição de extras mensais para seus colegas de Congresso Nacional. Mais pela função do que pelo coração, mas a rima, ensina o poeta, nunca foi solução pra nada.
  Com a habilidade para manobrar situações complicadas, herança genética dos patrícios, Janene usou e abusou das duas circunstâncias, ora colocando na mesa a possibilidade de contar tudo, ora jogando na cara dos congressistas aquela recomendação quase familiar, para evitar a culpa depois, de que não se chuta cachorro morto. Saiu vivo e ileso de uma batalha onde tombaram de poderosos como José Dirceu e Roberto Jefferson a não tão poderosos, como seu vizinho de cidade, o peemedebista, José Borba.
  Lamentações de adversários políticos à parte, o que sobra da tão propalada CPI do Mensalão, ou dos Correios, como queiram, é uma velha conhecida dos brasileiros, companheira inseparável dos arranjos políticos desde que o mundo é mundo, a impunidade pura e simples. Se ficássemos apenas com o sentimento paranista, existe até uma justificativa, na base do ‘‘por que só o Janene, logo ele, doente do coração, deve ir para a guilhotina, quando tantos outros se safaram e até se reelegeram depois?’’. Se fôssemos mais além, e pegássemos o caminho da história política brasileira, cairíamos na máxima do Stanislaw, ‘‘ou instaure-se a moralidade ou nos locupletamos todos’’ . Pontos para Janene.
  Um pouco de coração mole aqui, outro tanto de medo das conseqüências ali, e eis que um verdadeiro arquivo sobre o funcionamento do Congresso Nacional como ele é, foi trancafiado a sete chaves. O Homem do Mensalão vai cuidar da saúde em paz e o Brasil prossegue na rota da política cordial, da convivência amena e supérflua entre seus pares.
  Aparentemente, um perdão a mais ou a menos, não abala as estruturas da nação. De tão corriqueiro, o passar por cima dos desvios cometidos por políticos, os grandes e os pequenos, não muda tanto assim a vida dos brasileiros. Ora, diria a camponesa grávida e solteira da parábola de Lênin, ‘‘mas o bebê é tão pequenininho!’’.
  O efeito de tamanha ignorância se instala é aos poucos. E a gente começa a sofrer as consequências quando, num País continental como este, não se sabe nem se os aviões estão em terra ou no ar. Ou, num Paraná cheio de terra fértil pra plantar, produtores rurais e sem terras vão para as estradas se atracar no pau-a-pau. Ou, ainda, quando as balas perdidas começam a atingir crianças na nossa frente nas periferias das grandes cidades.
  A impunidade pode favorecer um deputado doente e que, comprovadamente, aliciou colegas com dinheiro público para salvar a cara ou atender a vontade do Governo de plantão. Mas o preço quem paga, de um jeito ou de outro, somos todos nós.

O acordo do BADEP
  Uma soma considerável, de R$ 36 milhões, pode beneficiar 400 famílias paranaenses ou se manter nos cofres do tesouro estadual, nesta semana. Este dinheiro faz parte da liquidação do Badep (Banco de Desenvolvimento do Paraná) e é um repasse que deverá ser feito para o Fundo de Pensão do banco, se o acordo entre as famílias e a Secretaria da Fazenda do Estado for aprovado pela Secretaria de Previdência Complementar, em Brasília.
  O senador Flávio Arns, do PT, favorável ao acordo, empenhou-se pelo desfecho do assunto, mas encontrou dois entraves: a oposição de metade das famílias que preferem esperar e obter melhores condições na Justiça e a situação financeira do tesouro estadual. Se tiver dinheiro em caixa para pagar o 13º do funcionalismo, o governo Requião topa o acordo e libera o dinheiro. Se não tiver, tudo permanece como está.

[email protected]

mockup