Uns Caipiras em Paris
  Quando o pessoal do Jaime Lerner ia para a França, com ele junto, coisa que acontecia a cada 2 ou 3 semanas durante o Governo, formava-se uma comitiva de chics no ‘‘úrtimo’’. Eles sabiam onde comer o melhor croissant de Paris, tinham mesa quase cativa no Deux Magots, o café imortalizado por Sartre e Simone e andavam pela Cidade Luz com aquele ar de enfado que só os franceses que moram por lá, e os habitues, costumam exibir. Questão de constância.
  Uma postura muito diferente, claro, do pessoal do Requião, que neste começo de verão europeu deve estar usando aqueles capotes compridos, comprados no Frichsmans em Curitiba, e tirando fotos com sinal de vitória sobre a cabeça uns dos outros, encarapitados numa das pontes do Senna. Se duvidar, o Benedito Pires e o Airton Pissetti, com o Tri-Supremo do lado, estão perguntando a esta hora, a algum francês que acharam parecido com o Dobrandino Silva, ‘‘será que sabes se tienes una churrascaria equal ao ‘Costelõn Del Catarina por acá?’’ Questão de caipiragem mesmo.

Entre o Paraná e a França
  Diários de viagens oficiais, portanto, não devem ser motivo de preocupação aqui no Paraná. Por dois motivos: ou nos matam de inveja ou nos matam de vergonha. O que deve ser motivo de atenção é a ligação dos fatos que ocorreram no Paraná nesta semana com a comitiva que viaja pela França. Aqui, sem mais nem menos, o peemedebista eleito deputado, Luiz Cláudio Romanelli, que repete há uns 30 anos o mantra ‘‘eu quero ser Roberto Requião’’ encheu-se de fúria contra o empreiteiro, misto de dono de shoppings e de rádios e TVs, Joel Malucelli.
  O alvo não foi exatamente Malucelli, mas o pré-contrato que ele tem com a Copel para a construção de uma das maiores obras previstas para o próximo Governo, a hidrelétrica de Mauá, no Rio Tibagi, a um preço respeitável de R$ 900 milhões. Os argumentos de Romanelli são, aparentemente, bem intencionados. Ele pede, em nome do PMDB, que se faça licitação para a obra.

Linha direta
  Mas nenhuma criancinha e nenhum adultinho deste Paraná do meu Deus seria tão crédulo a ponto de imaginar que Romanelli e seu PMDB amestrado agem apenas para alertar seu Guru de um problema na licitação da Usina Mauá. Muito menos que, pelo bem do povo deste Estado varonil, ataca pela imprensa um dos maiores empresários do Paraná que, afinal, participou de um pré-contrato aprovado pela Aneel e sob a anuência da Eletrosul. E mais, sendo este mesmo empresário, sogro do belo sobrinho do governador, João Arruda.
  Tudo isso sem uma ordem enviada diretamente da França, Romanelli? Só se as galinhas criaram dentes e não contaram pra ninguém.

Outro motivo
  O que permeia toda esta polêmica é o interesse de um dos maiores grupos da construção civil do País, a Andrade Gutierrez, em participar das obras da Usina Mauá. E, certamente de outras obras estaduais que virão. Tradicionalmente, a Andrade Gutierrez, como demonstram as prestações de contas das últimas campanhas, doou recursos para candidatos às eleições paranaenses, entre eles, o governador Roberto Requião. É claro que empreiteiros em geral não doam dinheiro pra sustentar campanhas pelos belos olhos dos candidatos, mesmo sendo os azuis do Tri-governador.

Presidência à vista
  Mas qual seria a razão, perguntariam os mais antenados, pra escolher um empreiteiro de fora quando o próprio empreiteiro de dentro já se mostrou doador universal de campanhas? De fato, é briga de cachorro grande, no bom sentido, lógico. Mas tem um elemento pra lá de compreensível: quando se pretende disputar a presidência da República as fronteiras do torrão nativo não se mostram suficientes.É preciso avançar. E neste caso, entre um dos maiores empreiteiros do Paraná, Joel Malucelli, e um dos maiores do Brasil, a Andrade Gutierrez, quem teria mais fôlego para doar grande para a futura campanha presidencial de Roberto Requião?
  Onde é que começamos, mesmo? Falando de Paris? Pois é!


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