RUTH BOLOGNESE
Um acidente...
A prima Thalita, linda e com aquele frescor de pele, cabelos e olhos que só se tem aos 20 anos, pisou mais fundo no acelerador enquanto vencia os poucos quilômetros da PR cheia de curvas que liga Curitiba a Bocaiúva do Sul, numa bela manhã da semana passada. Meio segundo de distração e o Gol voou por cima das copas dos pinheiros à beira da estrada e caiu numa ribanceira de 30 metros, altura de um prédio de 5 andares. Três ou quatro piruetas depois, o carro virou um papel amassado com força. Sem cinto de segurança na hora do acidente, Thalita não teve um corte sequer no corpo inteiro. E teve a sorte de ser atendida por um experiente enfermeiro do Siate, que vinha logo atrás. Quatro horas para ser retirada do local, imobilizada, e na sequência um diagnóstico médico que paralisou a família inteira: aos 20 anos, corria o risco de ficar paraplégica. Estava com a coluna fraturada.
Novos exames apontaram para a possibilidade de cirurgia e uma esperança. A menina perderia alguns movimentos, mas estava livre da cadeira de rodas. Ante ontem, finalmente, a esperança se tornou alívio. Um severo tratamento, com colete e imobilidade total, por longo tempo, deverá salvar Thalita de uma seqüela grave e definitiva e devolver-lhe a chance de viver com plenitude.
...e uma coincidência
Se os jovens pobres e pretos brasileiros são assassinados por armas de fogo nas periferias das grandes cidades, todos os dias, os filhos da classe média estão morrendo no volante dos carros que ganham assim que completam 18 anos. É uma carnificina que, de tão corriqueira, banalizou-se e só nos dá a dimensão exata do terremoto que provoca em milhares de famílias quando bate à nossa porta.
Talvez por coincidir com um momento de sensibilidade pessoal, o projeto de lei dos deputados Hermas Brandão, PSDB, e José Domingos Scarpellini, PSB, tenha chamado a atenção. Prevê desconto de até 20% no imposto sobre a propriedade do veículo, IPVA, para motoristas que não cometeram infrações de trânsito durante o ano. Os dois deputados já tentaram implantar o desconto progressivo do IPVA no ano passado, mas a bancada governista rejeitou, alegando que Estado e os municípios perderiam receita. No Rio Grande do Sul o desconto vigora há 7 anos.
Punir é o melhor remédio, sempre ensinaram os defensores de pesadas multas de trânsito, instalação de radares e afins. E é mesmo. Como dizia a Vó Maria, quando a água bate no queixo, todo mundo aprende a nadar. Mas, de repente, uma vantagem financeira ou um bom desconto no IPVA, também podem levar outras Thalitas a serem mais atentas ao volante sem passar pela dura experiência de coletes aramados e ingestão de Vallium, para suportar a imobilidade prolongada.
Na sexta-feira os deputados aprovaram por unanimidade o projeto de Hermas e Scarpellini e amanhã dão a redação final antes de enviar para o palácio Iguaçu dar a última palavra. É claro que o governo vai olhar o projeto com um olho na chance que tem para reduzir acidentes e mortes e outro na caixa registradora. Mas, a cada um, a sua própria consciência.
O direito de saber
Depois daquele período tenebroso de chorar, sozinha, a beira de calçadas curitibanas, esta colunista anda encontrando só alegrias no Tribunal de Justiça do Paraná. Ainda sobre a ação movida por Cláudio Hoffmann, genro do ex-governador Jaime Lerner, vale a pena ler o acórdão do desembagador Eugênio Achille Grandinetti, relator: Assim sendo, cabe ressaltar que, em se tratando de fatos relacionados a agentes no exercício da função pública, a liberdade de informação deve ser protegida, uma vez que tais fatos interessam a toda a sociedade. E segue em momento algum a apelada ataca ou denigre a imagem ou a honra do apelante com suas afirmações. O que ela faz é, simplesmente, lançar questionamentos à população, convidando para que reflita uma questão de extrema relevância ao interesse público, e para que formule sua própria opinião acerca do assunto.
Evoé, desembargador!
[email protected]





