A Imprensa e a Justiça

A internete(*) é o maior jornal do mundo. Através dela, qualquer bagual que saiba juntar uma letra noutra, formar uma palavra e disso tirar uma frase, pronto, já consegue ser meio jornalista. Para virar um jornalista inteiro basta chegar perto do governador Requião. Se ele ficar vermelho de raiva pode sair dali e procurar emprego no Globo.
Ter tantos coleguinhas de profissão assim, de Adrianópolis ao Azerbaijão, é bom ou ruim para quem ganha o pão nosso de cada dia fazendo...jornalismo? Assusta um pouco, é verdade, leva o coitado a se esturricar diariamente para noticiar um fato que ainda não tenha caído na Big Rede e o condena, como um pobre, a ter um triste amor à honestidade. Jornalista rico é um disparate tão grande como empreiteiro pobre. Se acontecer, ambos fracassaram em suas atividades fins.
Diante da realidade do sem lenço nem documento, da internete no calcanhar e da incompreensão (pra não falar em intolerância e saco de pancada) dos governantes, insistir neste ofício, atualmente mais malhado do que Judas, é coisa de doido, diriam os mais espertos. É tudo verdade. Mas tem lá suas compensações.

O primeiro round

Depois de chorar, solitária, numa calçada de Curitiba há uns dois anos, (não é força de expressão, foi isso mesmo), por medo de ser aniquilada profissionalmente, por processos judiciais, esta brava colunista recebeu, nesta semana, a primeira sentença sobre as ações movidas pelo publicitário Cláudio Hoffmann, ex-genro do governador Jaime Lerner, e a Heads Propaganda. Pediam indenizações milionárias pela publicação de uma nota em que se noticiava o parentesco e o favorecimento da Heads nas contas de publicidade do Governo da época.
A defesa foi feita pelos advogados René Dotti e Patrícia Nymberg, experts absolutos na área, e que os faz trafegar como senhores no coração desta ré solitária. Ambos os processos foram arquivados. Outros julgamentos virão, mas já não é preciso chorar na calçada. Se jornalistas são intimidados Brasil afora, no Paraná Sangue de Jesus tem Poder. E a Justiça também.

Democracia e...

Disse o Juiz Fernando Paulino Silva Wolff: ''Não se pode olvidar, neste particular, que numa democracia como a nossa, ainda incipiente, deve-se também reservar à imprensa o papel instigador para, a partir de fatos verdadeiros e outros indícios, despertar o público da letargia que o sistema outrora lhe impôs, para que pare para pensar que existe mais coisa entre o céu e a terra do que filosofia vã possa explicar. A liberdade de expressão assim, deve ser entendida de modo mais amplo possível, para albergar uma gama multiplicadora de possibilidades, mas sempre com respeito dos objetivos, para o qual a liberdade foi criada, pena de torná-la ilegítima''.

...Liberdade

E disse o Juiz Fernando Swain Ganen: ''Portanto, não vejo, neste caso, violação de direito a ser motivo para indenização, mesmo porque não se pode negar a honestidade e a honradez da autora, enquanto empresa particular, nem deve se negar a qualidade dos serviços que vem prestando, mas, uma vez que se envolveu com o poder público, mesmo por processo licitatório regular, deve ficar sujeita a 'virar notícia' e ser objeto de crítica, principalmente quando tem o genro do Governador como seu empregado, daí porque sua sensibilidade deve ceder o papel da imprensa, principalmente quando age no interesse público''. Mais ''não se pode, assim, a informação, a crítica, (ainda que irônica acerca de determinado fato de domínio público) ser confundida com ofensa e abuso que não se extrai ter ocorrido nos presentes autos''.

* Em Curitiba não se diz internet com o ''t'' mudo, mas com o ''e'' aberto. in-ter-ne-te. É um sotaque horroroso, sim. Mas nosso, uai!

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