Só pra contrariar
  Pode ser por causa da água das Cataratas ou dos microclimas. Ou, talvez, efeito das frentes frias que vem da Patagônia, mas o fato, concreto, é que aqui no Paraná as coisas acontecem ao contrário.
  A começar pela hidrografia: o rio Iguaçu, nosso maior patrimônio aquático, nasce no Sul, na Serra do Mar, mas toma rumo contrário. Ao invés de seguir para o Litoral, como seus colegas, percorre 1 mil 320 kms e deságua no rio Paraná. E mais esta, o Rio Paraná tem nosso nome, mas nos esnoba e se apresenta como um divisor de águas entre o Brasil, Paraguai e Argentina.
  A continuar pela geografia: a fronteira seca, com o Paraguai, é imensa, comprida, enquanto o litoral é um pedaço desmilingüido, um tico de areia e água salgada que não dá nem pro gasto. Nosso sertão virou mar, é verdade. Mas de soja.
  E a se concluir na simbologia: nesta terra de agricultores e semeadores, depende-se de um passarinho distraído, a gralha azul, para que a árvore símbolo do Estado, a araucária, cresça e apareça.

Na contramão
  São fatos indiscutíveis e para cada lado que se olha, aí estão os contrários. Por exemplo, a chamada Terra de Todas as Gentes só perde em beligerância para o Vale do Paranapanema quando se fala em Movimento dos Sem Terra. A Ferrovia Central do Paraná corre pelo Norte do Estado e a Rodovia do Café atravessa pastagens e campos de soja e trigo.
  A tão propalada mistura de raças e etnias só produz branquelos e sotaques diferentes do Norte ao Sul do Paraná. E a própria mistura racial enfoca a contradição: a estrela da ginástica é a negra Daiane dos Santos e a do taekwndo, Natália Falavigna, tem jeito e nome italiano.
  Aqui, Mato Rico é apresentada como pobre, Doutor Ulysses é jovem, Dois Vizinhos é sozinho, Turvo é clara, Matinhos é balneário, Jacarezinho e Barra do Jacaré nem conhecem o bicho direito e Cascavel não vê a cobra há muito tempo.
  Os paranaenses com tantos sobrenomes estrangeiros no currículo elegeram um deputado que se chama Litro e outro que se chama Leite e um terceiro chamado Ratinho Junior. Para a Câmara Federal, mandaram o Chico da Princesa, o Frangão e o Dr. Rosinha. E para o Senado, elegeram e reelegeram um senador cujo sorriso estático se mantém há exatos 40 anos. E outro, irmão dele, que há 35 anos mantém a barba branca e o cabelo escuro sem nunca, mas nunca, ter trocado as bolas na hora do tingimento. Provas do que, minha gente? Do efeito contrário, lógico.

Em coerência
  Diante de tantas evidências de que no Paraná tudo acontece ao contrário, chegamos enfim, ao moral da história: ora, nada está mais de acordo com a realidade local do que a reação de Roberto Requião que, ao ser reeleito pela terceira vez Governador do Paraná, caiu na mais profunda deprê. Ao invés de comemorar, esbravejou e chorou as pitangas. Pior, de tão revoltado que ficou por ter vencido a eleição, primeiro duvidou do resultado das urnas eletrônicas e depois reuniu Tvs, rádios, jornais e sites em geral e declarou-se inimigo número um de todo este pessoal, justamente eles, de todo este pessoal, justamente eles, os responsáveis por manter a auto estima de qualquer governante.
  Fenômeno raro? Está cuspindo no prato...etc,etc? Nada disso. Por ser um paranaense perspicaz, conhecer a fundo a teoria dos contrários, Roberto Requião descobriu antes de todo mundo que, na verdade, o povo queria mesmo eleger o Osmar Dias. Mas só pra contrariar, deu a vitória a Roberto Requião.

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