RUTH BOLOGNESE
Toda baixaria tem seu valor
O fabuloso e cruel Nelson Rodrigues dizia que se todo mundo soubesse o que todo mundo faz entre quatro paredes ninguém se cumprimentava com as mãos. Porque se trata de Nelson Rodrigues, a referência era ao comportamento sexual dos humanos em geral. Mas a frase vale mais ainda para a política. É claro, se a gente soubesse o que se trama e se faz nos cantinhos escuros dos governos e dos partidos, ninguém perderia tempo apertando os botãozinhos nas urnas. Muito menos as mãos dos candidatos.
Por isso, ao chegar numa disputa acirrada como a que acontece no Paraná neste segundo turno, a campanha eleitoral entra naquela zona do agrião onde o horário político produz mais emoção do que a bela Sonia Braga (agora totalmente vestida) subindo num caça da FAB na novela da Globo. Mas o que nos atrai para o normalmente insosso horário político? As propostas apresentadas pelos candidatos ao Governo, diria o eleitor. Fala sério, ai, Cara Pálida!
Um jornalista português que aportou no Paraná há muitos anos, fugindo do socialismo angolano, com toda a lógica que caracteriza nossos colonizadores, era categórico: o que nos atrai numa corrida de automóveis é a possibilidade do desastre. Ninguém admite, mais é isso, sim. Falou sério o Homem do Além Mar! Assim como, o que nos leva a assistir aqueles barbados, ou não,falando sem parar, é a chance de descobrir como podem ser podres,tanto o reino da Dinamarca, como o poder no Paraná.
Dos pequenos detalhes
Da porta pra fora, qualquer candidato se mostra como a terceira encarnação de Gandhi. E mais, se indigna com o adversário que ousa mostrar ao vivo e a cores os pequenos delitos pessoais já que, diz o ofendido, o que interessa ''é o debate sobre propostas e idéias''. Enquanto ele fala, se a câmera mostrasse o cenário todo, a gente poderia ver os assessores jogando lama na mãe do adversário. Mas, ao contrário de jogo de futebol, em política vale colocar até a mãe no meio? Ora, ora, minha gente, nos dias que correm, onde as mulheres estão em todas, se a mãe for ''malaca'', e isso tiver a ver com o candidato, vamos colocar mãe na roda também.
A real, o que a tal da baixaria, tão condenada em público, possibilita mesmo é um pouco, um pouquinho só, do conhecimento da vida do candidato quando ninguém está olhando. Senão, vejamos: neste segundo turno da eleição paranaense ficamos sabendo, até agora, que:
1) o candidato a tri-governador, Roberto Requião, o defensor dos fracos e oprimidos, é dado a mandar pequenos agricultores enfiar as críticas no fiofó quando estas o desagradam;
2) o candidato Osmar Dias, o homem do respeito, nos áureos tempos de vastas barbas pretas e cabelo idem, tomou umas e outras e provocou um maremoto de palavrões e obscenidades na presença de senhoras da cidade de Barracão, no extremo oeste do Paraná;
Eis aí pequenos detalhes que fazem a diferença.
Prevenção
Se alguém vai mudar o voto diante de tais ''incoerências'' entre o homem público e o privado, aí já é do livre arbítrio, garantido por Deus e pela Constituição. Todo mundo já está bem crescidinho para saber de determinadas facetas dos candidatos e avaliar se vale a pena apostar, ou não, na figura.
Mas a baixaria na hora certa pode prevenir desastres futuros. Um exemplo: há cerca de 15 dias, mais ou menos, o respeitado congressista americano, republicano, Mark Folley, foi pego com a mão na massa, trocando segredinhos íntimos por e-mail com um estagiário, menor de idade. A denúncia de pedofilia veio a público e o deputado, ligado a Bush, renunciou ao mandato e internou-se numa clínica de reabilitação. E o deputado, imaginem só, era raposa no galinheiro. Ocupava uma das comissões do congresso que tratava de pedofilia, abusos a menores, etc, etc.
Agora, vamos imaginar: se na campanha eleitoral, o tal Folley fosse vítima de uma baixaria dessas, acusação de pedofilia, teria sido eleito? Mesmo eleito, chegaria a fazer parte justamente de uma comissão de assuntos tão relacionados a ele mesmo?
Em campanha eleitoral, baixaria tem que bombar mesmo! De hoje, até quinta-feira, se você for paranaense, vacinado e tiver mais de 16 anos, não perca o horário gratuito. Será só emoção.





