A CADA UM, OS SEUS ENGANOS

Político erra? Pra caramba, como todo mundo: promete e não cumpre, se alia ao Chifrudo em troca de votos, elogia o Collor, cobra mensalão e, se for necessário, vende a mãe. Ei, mas tudo isto aí e mais um pouco fica na conta do instinto da sobrevivência no terreno maleável, e põe maleável nisso, da ética que rege a política. Não pode ser pecado, gente. Cumpre-se a regra do jogo, ora essa.

O que é considerado erro grave, gravíssimo, entre políticos, é o erro de cálculo. E não estamos falando aqui de números, mas sim da ''bobice estratégica circunstancial'' que pode levar a uma grande e péssima surpresa em futuro próximo. Exemplos? Tem aos montes. O presidente Lula fez pouco caso quando o Zé Dirceu expulsou a Heloísa Helena do PT. ''Percisa'' dizer mais? O Alckmin foi lá no Rio de Janeiro e firmou acordo com o casal Garotinho e está até agora recolhendo os cacos. O PT descumpriu, lá atrás, o acordo mensaleiro com o petebista Roberto Jefferson e...

Aqui e agora

Aqui no Paraná, o dia da Aparecida deixou claro o maior erro de cálculo cometido nestas eleições e por dois veteranos na arte dos bastidores e alianças políticas, o governador Roberto Requião e o presidente da Assembléia, Hermas Brandão. Há mais de ano, Hermas pegou pela mão seu afilhado político mais ilustre, o prefeito de Curitiba, Beto Richa, e o levou ao Palácio Iguaçu, onde se deu início a uma parceria com o governo Estadual a favor da Capital. Nada mais compreensível e admirável.

Fotos de governador e prefeito, sorridentes, visitando obras ou assinando convênios tem aos montes por aí. Frases de elogios mútuos, idem. E nem o declarado apoio do PSDB, o partido dele, ao candidato Osmar Dias, tirou Beto Richa do muro da neutralidade em que subiu durante todo o primeiro turno. Neutralidade? Nem tanto. O vice-prefeito, Luciano Ducci, colocou a favor do candidato a tri-governador toda a estrutura da azeitada máquina da saúde da Curitiba periférica e trabalhou bonito pela reeleição.

A parceria ia tão bem que uma semana antes do domingo da urna, o governador em exercício e padrinho-mor, Hermas Brandão, botou o chamegão numa transferência de verba de R$ 19 milhões para que o afilhado recuperasse todo um contorno de tráfego da cidade.

A surpresa

Abertas as urnas, e a boa e velha Curitiba, o maior colégio eleitoral, trouxe vitória para Osmar Dias. Surpresa geral, mas era apenas a primeira de uma série. Nem bem os parceiros palacianos tinham se refeito da surpresa e o prefeito curitibano, na base da ''que neutralidade, que nada'', sacudiu a poeira e deu thiauzinho. E como se fora para recuperar o tempo perdido, Beto Richa estréia o primeiro dia de campanha do segundo turno confortavelmente instalado ao lado de Osmar Dias e mais, contestando alto a cobrança do amor demais de Roberto Requião. De ex-quase-aliado, passa agora a retrucar e a exibir provas documentais quando o governador diz que se sente, também, um pouco prefeito da Capital, na tentativa de trazer pra si os louros da administração.

Mudou Beto Richa? Mudaram Requião e Hermas Brandão? Era um jogo de cena do primeiro turno? Não. Erro de cálculo. Falhou a estratégia ingênua dos dois ladinos da política que acreditaram primeiro, que iriam coligar o PSDB com o PMDB no Paraná, acordo devidamente neutralizado na casca. Depois, que iriam ganhar a eleição no primeiro turno e para isso bastava neutralizar Beto Richa na Capital. E, finalmente, que poderiam manter o prefeito da maior cidade do Estado seguro, do lado, na eventualidade da segunda época, mesmo ele sendo de outro partido e com a pressão da candidatura presidencial. ''Afinal, fizemos tanto pra este menino, demos tudo o que queria...''.

A cada um, os seus enganos. Deus que me perdoe, mas fazer política, às vezes, é pior do que lidar com o Coisa Ruim.

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