Quando todos os santos empurram

Há um fator de mais valia nas campanhas eleitorais, tal qual aquela história da conjunção universal das coisas, onde uma borboleta que bate as asas nos arrozais da China provoca um terremoto nas minas de cobre do Chile. Mais ou menos assim: se o candidato tosse duas vezes em Curitiba e alguém observa que ele está meio desanimado, o rastilho de pólvora invade, imediatamente, todos os segmentos da campanha e o comerciante de Barracão, no Extremo Oeste do Estado, começa a desconfiar que a eleição está perdida. Funciona tanto com boas quanto com más notícias, com um pouco mais de afinco nas más.
Não existe fórmula capaz de reverter um quadro assim, de pré-desânimo, e isso explica porque, de uma hora para outra, o poderoso candidato a bi-governador, Roberto Requião, vencedor do primeiro turno das eleições no Paraná, tem como adversário matreiro a opinião geral de que pode perder a parada no segundo round para Osmar Dias. Nem existem, ainda, indícios concretos que indiquem o desfecho sinalizado, a máquina de Governo está aí para ser utilizada e ninguém botar defeito, e os mesmos correligionários mantêm disposição pra luta. Mas um tico de dúvida de que tudo pode ir por água abaixo envenena o batalhão e contamina a campanha situacionista.

As traições explícitas

O tico, não tão tico assim, que atingiu os peemedebistas foram os números favoráveis que as urnas trouxeram para Osmar Dias no último domingo. Abaixo do primeiro colocado, mas com as temíveis tendências para cima. Pronto, eis o rastilho de pólvora levando o charme neutro de Beto Richa para o lado adversário, agora em forma de apoio explícito, os acordos com os Rubens Buenos da vida, com os deputados mais votados, etc, etc, fatos novos e bem explorados pelo adversário na semana que passou.
Do lado de cá, um Roberto Requião de cara amarrada, obviamente magoado com o resultado traiçoeiro das urnas nas grandes cidades, onde investimentos do Governo estadual foram abundantes e constantes. E, dividido, no plano nacional, entre o Paraná neoliberal que votou em Geraldo Alckmin e o acordo de pele que sempre teve com o presidente Lula. Mais, obrigado pelas circunstâncias a ''comemorar'' a adesão de partidecos, como se fossem réplicas do partido comunista da China em termos numéricos.
Por debaixo dos panos, como soy acontecer em paradas como essa, os prefeitos paranaenses, apresentados durante toda a campanha como a força motriz da reeleição, começam a acender uma vela para Deus e outra para o Coisa Ruim. Olha aí o tal do tico que envenena a alma transformado num ''tremulhão'' que avança sem dó para as fileiras peemedebistas.

A cada homem o seu valor

Hão de perguntar, os homens de pouca fé: então a fatura já está liquidada e Roberto Requião tem que começar a pensar em abandonar a aprazível estância do Canguiri, a residência oficial do Governo do Paraná, em janeiro? Nem tanto, nem tanto.
Chamuscados, desiludidos talvez, mas não mortos, os peemedebistas já começam a levantar bandeiras. E miram o líder maior, Roberto Requião, com a expectativa dos hebreus na praia do Mar Morto. Com razão.
Nos próximos capítulos, o que vai ficar em evidência são os dois candidatos, frente a frente. Nos debates e nos programas de TV. É questão de pegar o eleitor a unha, e mantê-lo. Em outras batalhas, Requião já demonstrou capacidade de virar o jogo, mesmo em caso de grande desvantagem. Pode até ser considerado um governante que produz fatos contra si mesmo, mas é um grande candidato nas horas incertas. Pontos para ele. Osmar Dias entra no segundo turno amparado pela novidade, pelos apoios e pela boa surpresa das urnas na última hora. Pontos para ele.
Quem se arrisca no palpite definitivo? Não esta brava colunista que, de tanto pelejar na vida, aprendeu a respeitar a força do imponderável e da batida de asas das borboletas chinesas. Principalmente em eleições.

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