Emoção zero

''Quero que me governe um homem bom e justo, que cuide para que chegando a noite todo mundo vá dormir cedo e cansado com tanto trabalho que tinha pra fazer e foi feito''. Adélia Prado





O tio Dito, que mora em Umuarama até hoje, era admirador do Paulo Pimentel quando governador, e chegou a comprar um óculos igual ao dele, de aro preto, pra ficar parecido. Quando vinha de visita, o tio Dito costumava fazer pose, e perguntava, esperançoso: ''Tenho o jeitão dele, não é? Se eu fosse estudado e tivesse a covinha no queixo, ficava igualzinho''. Um sonhador, como poucos.
Esta admiração do tio Dito por um governador do Paraná é sentimento que pertence ao passado. Hoje, fora o Doático Santos, o Luiz Cláudio Romanelli e este menino, o Luiz Fernando Delazari, que responde pela Segurança, nenhum paranaense perde tempo imitando o governador Requião. Ao presidente Lula, ninguém quer ser igual. De senadores, deputados, prefeitos e vereadores então, é melhor nem falar. O que significa que, aos poucos, vai-se pegando a picada em direção a uma convivência mais real com nossos políticos e governantes. Ou baixando a bola deles nos quesitos beleza, covinha no queixo e carisma e exigindo mais dedicação, conhecimento de causa e preparação para administrar o Estado. É claro que, se o pretendente ao cargo tiver tudo isso junto, aí é covardia.
Mas, basta observar: para fugir ao ridículo, já faz algum tempo que os candidatos abandonaram os discursos longos, emocionais e cheios de palavras difíceis para conquistar votos. Seria como o Djavan imitar o Vicente Celestino que, aposto, a grande maioria dos leitores tem que fazer um pequeno esforço de memória pra lembrar de quem se trata. Totalmente fora de moda, assim como o termo ''fora de moda''.
Outro hábito eleitoral que está sumindo são as promessas mirabolantes, como a longa estrada entre Curitiba e o porto de Antofogasta, no Chile, que levou o finado Martinez, em 1990, a vestir um poncho andino e falar diretamente dos Andes sobre a saída dos produtos paranaenses para o Pacífico. Sobre isso, ainda sobram resquícios, como as atuais Estradas da Liberdade, lançadas pelo candidato a bi-governador, Roberto Requião, mas já não fazem qualquer efeito.

De frente com a verdade

Está desaparecendo, portanto, o político que fala ao coração para dar lugar ao que fala para o cérebro. Nesta campanha, Rubens Bueno tentou dar um mínimo de credibilidade ao seu projeto de governo afirmando na TV que ouviu 50 mil paranaenses antes de apresentá-lo. Besteirol puro. Além do asfalto na própria rua, luz em casa, água na torneira, escola e segurança no bairro, qual paranaense, por mais preparado que seja, vai lá saber, individualmente, se tal usina ou tal rodovia merece prioridade? Pode-se até ouvir o Zé da Esquina, mas decisão estratégica é responsabilidade de governo. E candidato a governo tem que mostrar a que veio.
O candidato Osmar Dias fez pior. Ficou um ano entre o ser e o não ser e acabou chegando na campanha sem nem uma linha do que fazer do Paraná, se fosse eleito. As propostas dele para a educação, segurança e, pasmem, para a agricultura, não têm a menor novidade. Surgiram de uma ou duas reuniões com alguns técnicos mais próximos e caíram no vazio por falta de consistência. Requião ficou na dele, garantiu toddynho das crianças nos próximos 4 anos e não se fala mais nisso.
O resultado imediato desta falta de respeito para com a tarefa dificílima de comandar (bem) um Estado com 10 milhões de paranaenses, riquíssimo de possibilidades, é a falta de tesão para votar hoje. Quem não tem cargo em comissão neste governo, não é parente, empreiteiro amigo ou não está filiado ao PMDB vai mesmo é cumprir tabela. E indiferença é sentimento ruim, condenado na bíblia e corrosivo para relacionamentos em geral, do amor ao próximo ao amor à pátria. Dá saudade do Tio Dito, aquele que queria ser parecido com o Paulo Pimentel.
Poetas como Adélia Prado, com a frase lá de cima, nos conforta. Sociólogos como Max Weber nos abrem as cortinas: ''Você se julga capaz de ver, sem se desesperar nem se amargurar, ano após ano, passar à sua frente mediocridade após mediocridade?''
Mas, vamos lá: a escolha é hoje!

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