RUTH BOLOGNESE
L'ETAT SOY JÔ
Benza Deus! O nosso bom e velho governador Requião, o El Supremo do Sul, o Rei Quião, o ''Faço, Aconteço e Ninguém me Contradiz'' conseguiu transformar a própria fama de brigar até com os botões da blusa em vantagem eleitoral. São 30 anos de trato político, Gente! Longas décadas em que convive, sem pacifismo nenhum, com as pressões inerentes ao poder, adversários e companheiros de guerra. Quem tem medo de Requião? Praticamente todo mundo. Quem fala mal de Requião pelas costas? Praticamente todo mundo. Quem vota em Requião? Ora, o Homem caminha, lépido, via urna, para a terceira temporada no Palácio Iguaçu.
É um fenômeno curioso este homem alto, de cabelos quase brancos, olhos azuis, bela voz, raciocínio rápido, língua implacável e uma queda facilmente detectável para repetir, com veemência, a mais absurda fantasia e a inverdade de primeira hora sem nem piscar. Fenômeno sim, e com tal sintonia fina que, imagina-se, poderia ser cobaia para o mais eficiente detector de mentiras do mercado James Bond. Será que escrever isto melindra o protocolo institucional que se deve ter para com um governante licenciado? Quem está na chuva da caça aos votos, tem que ser molhado, ora essa. E, bem, agora já foi.
Mas vamos evitar ferir de morte o protocolo ao dizer que o governador Requião simplesmente mente. Apenas aumenta. Ou tergiversa. E neste quesito, os argumentos a favor podem ser, por exemplo, justificativas. A ver: de novo, são 30 anos de trato político, Gente! Outro: quem, dentre os políticos, seria capaz de atirar a primeira pedra na mentira? E um outro: o presidente Lula só disse duas verdades na vida (que foi pobre e que paga o Bolsa Família) e, com isso, se prepara para reprisar o mandato. Ponto para Requião e suas balelas diárias. Os fins, então, justificam...
Jeito de ser
Que é nervoso e irascível, até o próprio Requião confirma em voz alta para todo o Paraná, quando está de bom humor. Quando não está, aperta o dedo do jornalista desavisado e imprudente que ousa chegar mais perto. E como a fama de mau correu, solta, de Paranaguá a Foz do Iguaçu, eis que o Governador chega à terceira disputa para lhe garantir a verde calma da granja do Canguiri por mais quatro anos, assumindo, enfim, o lado Luiz XVI de ser, no famoso slogan que atravessou séculos do ''L'etat cest moi'', ou numa versão menos abrangente, poderia ser aqui ''L'Paraná cest moi''.
Mesmo agora, na condição de candidato licenciado, Roberto Requião não dá mole pra ninguém. Toma para si a rédea do mando total e, não satisfeito, confunde a instituição (o Estado) consigo próprio. Na peregrinação pelos votos une o absolutismo já conhecido à vertente sedutora de pregar com força e convicção sobre ... o nada. Senão, vejamos: a economia do Paraná retrocedeu ao invés de crescer, nenhuma indústria se instalou aqui, o governo comprou uma usina termoelétrica que nunca funcionou, o porto de Paranaguá nem dragagem tem, só um hospital regional foi construído, a segurança ninguém precisa nem comentar, o pedágio está aí pra todo mundo ver, e assim caminham os paranaenses.
Mas na verve habitual, o candidato do PMDB vende uma gestão que nunca entregou e, ele sabe, nem vai entregar, se vencer a próxima eleição.
Leite & Arte
De todos os números e de todas as fantasias que o candidato Requião alardeia sobre a gestão atual com presteza de um pregador de evangelhos, só se pode acreditar na luz de graça e na distribuição do leite das crianças, este, sim, não falha e nem falhará, garantia de um voto por litro. A área de incentivos fiscais e tributação também vai bem, obrigada. Estradas ''malemá'' recuperadas, o plano de carreira dos professores e os serviços cotidianos que o Estado têm por obrigação manter estão aí. Nenhuma grande denúncia de corrupção. E no Museu Niemeyer, dona Maristela Requião se movimenta com graça e elegância entre obras de arte de cair o queixo. Ou seja, se não causou grandes prejuízos ao Estado, o segundo governo Requião também não foi, assim, nenhuma Brastemp.
Cá entre nós, nada que justifique essa postura de ''L'etat se moi'' com que o governador se auto inflama, como se fosse o rei da cocada preta. Está mais pro ''L'etat soy jô'' no sotaque ridículo de quem se aventura no portunhol. Agora, Roberto Requião faz o show dele, canta de galo e se o povo acredita, se der resultado positivo, está com a vida ganha. Depois de três décadas de convivência política, o Paraná sabe com quem está lidando. Por isso, nem vale a ironia do velho ditado ''quem te conhece que te compre!''.
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