O outro Osmar
Pra conhecer mesmo uma pessoa é preciso comer junto um saco de sal, dizia a Vó Maria, com a calculada ironia de quem sabia das coisas. Falava a Vó para as jovens netas, embaladas pelos hormônios do primeiro amor que transformavam num príncipe o primeiro malaco a lhes fazer um aceno de longe. O saco de sal era medida de tempo, calculado nas pitadas do dia-a-dia nas refeições, que o casal apaixonado levava mais de ano para consumir, lado a lado.
O baiano Caetano, mais sabido do que a Vó Maria, canta em poesia os desenganos diários em ''de perto, ninguém é normal''.
Mas como nosso assunto de sempre é a política, e não poetas e casais apaixonados, voltemos à vaca fria. Ou, só para manter o trocadilho, a um certo ''Boi de Botas Frio'' que estamos conhecendo só agora, na pessoa do senador e candidato ao Governo, Osmar Dias. E, convenhamos, não foi nem preciso um saco de sal de convivência sob o mesmo teto para o Paraná conhecer o outro Osmar. Bastou um ano e pouco de atividade político partidária e o único candidato capaz de enfrentar Roberto Requião ali, no mano a mano, se transformou num adversário dócil, tímido e atrapalhado.
A gente deveria ter desconfiado há muito tempo, mas se nas jovens românticas os hormônios fazem a festa da paixão, no eleitor a vontade de acreditar se encarrega de produzir a cortina de fumaça. Nem vamos falar aqui deste estranho ano que antecedeu ao lançamento da candidatura de Osmar Dias ao governo do Paraná, quando ele próprio se encolheu e se distanciou tanto dos problemas do Estado (febre aftosa, crise na agricultura, etc etc), como dos problemas do País (corrupção rolando solta, CPIs no Congresso Nacional, etc etc). Também não dá pra puxar de novo o mais do que batido problema nas panturrilhas, a manter em suspenso por meses a fio, junto com as próprias pernas, a decisão de sair candidato.
Vamos falar sobre tempos mais recentes quando, finalmente, o nosso bom e velho Urtigão surgiu na passarela e, para nossa surpresa, vestindo um novo figurino, falando de ''campo'' e ''cidade'', termos afeitos muito mais à sociologia acadêmica do que a um homem cuja identidade política sempre passou pelos eitos da plantação.

O projeto Paraná?
Já podemos perguntar, na sinceridade, se foi a máscara de Osmar Dias que caiu ou fomos nós que nos auto-enganamos, ao acreditar na suposta coragem do homem que vinha da terra? E não era só a coragem que se aguardava com expectativa, não. Esperava-se, principalmente, uma alternativa de governo entre aquele cosmopolitismo de liquidação do Estado paranaense, promovida por Jaime Lerner e a opção rancorosa pelos pobres da Carta de Puebla de Roberto Requião.
A pouco mais de 20 dias da eleição, o ilustre representante do aguerrido agro negócio do Paraná conseguiu, a muito custo, apresentar a 'Fábrica do Agricultor' como a grande solução para o setor agrícola do mais produtivo Estado da Federação. Projeto que saiu da prancheta de um arquiteto-governador que nunca conseguiu diferenciar um pé de soja de um pé de milho com a mesma segurança com que traçava corredores urbanos nas grandes cidades.
E de progresso agrícola mesmo, esperado da lavra do senador, só se sabe de uma fazenda no Tocantins, de nome Lagoa da Prata, muito mais valiosa na real do que nos emaranhados papéis de compra e venda apresentados oficialmente. No mais, o projeto estratégico de Osmar Dias para o Paraná ficou em soluções caseiras de mais saúde, mais educação, mais segurança. Tão crível como os todos os demais projetos apresentados por todos os candidatos nestas eleições, partidos nanicos entre eles.

Sem críticas
Se a ausência de um projeto alternativo para o Paraná coloca Osmar Dias no mesmo patamar dos outros candidatos ao Governo, o vexame mesmo acontece no dia-a-dia da campanha eleitoral. Aqui em Curitiba, entre os poucos gatos-pingados antenados nestas eleições, brinca-se com situações constrangedoras. Por exemplo: se alguém quiser notícias da campanha de Roberto Requião, por onde anda o candidato-governador, o que está fazendo hoje ou pretende fazer amanhã é só acessar o site do...candidato Osmar Dias. Lá tem tudo e um pouco mais sobre Roberto Requião. Se duvidar, publicam até a agenda dele, sob o argumento de que está usando a máquina pública para fazer campanha eleitoral. E o eleitor? Ora, o eleitor que demora para captar tanta sutileza na crítica, acaba mesmo é sabendo o que Roberto Requião faz e acontece. Propaganda de graça, é isso aí
Então, quando alguém pergunta como é que o senador Osmar Dias não conquistou um mísero pontinho nas pesquisas e permanece estacionado aí pelos 25% do preferencial dos votos, é preciso olhar com atenção o candidato e seu comportamento amestrado. Os 25% são os votos que Osmar sempre teve, de gente que já o conhecia de cor e salteado no papel de Boi de Botas, nervoso e forte. O que se vê agora, não tem nada a ver com isso. E o não tem nada a ver com isso deve ser mesmo o Osmar Dias de verdade. Surpresa é que não tenha perdido votos pra caramba até agora. O irmão Álvaro e o prefeito Beto Richa que o digam...

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