O QUE PASSOU, PASSOU

Pelo menos para uma coisa está servindo este horário eleitoral gratuito que nós pagamos, o governo nos impõe e os marketólogos ganham milhões para produzir: o horário eleitoral gratuito terá que mudar a fórmula ou morrerá, por falta absoluta de interesse dos principais interessados, os eleitores. Morrerá porque afronta a realidade com muito mais desfaçatez do que a novela das oito, que vem logo depois. E com um roteiro onde os personagens são mais feios, menos instigantes e seriam todos cômicos, se não significassem uma verdadeira tragédia para quem está do lado de cá da telinha.
É só olhar o exemplo do Paraná. Aqui, no começo da década de 90, um grupo de jornalistas, câmeras e editores de TV com currículos para lá de Marrakech em termos de competência, e salários idem, foi trazido para a campanha televisiva de José Eduardo Andrade Vieira ao senado. Davam início, naquele momento, e é bom que se diga, sem intenção deliberada, a uma nova estética para programas políticos na tv, adocicando a aridez do discurso com belas imagens do meu Paraná querido, pôr-do-sol iluminando a plantação de soja, gado holandes mugindo bonito no pasto. Eram tão preparados e tão bem equipados que usaram da própria experiência (muitos egressos diretos da TV Globo) para levar aos programas políticos a mesma imagem e o mesmo enquadramento da emissora, aos quais a população brasileira estava mais do que acostumada. E lá apareciam os cantores e os artistas populares para louvar os candidatos. Eiiita coisa boa, meu Deus do Céu!

Vitórias
Este grupo, liderado por um mago das telas, um nordestino vindo de uma família de 18 filhos, de nome Wianey Pinheiro, fez história e fortuna no Paraná durante toda a década de 90, adentrando até o terceiro milênio. Pinheirinho, como é mais conhecido, elegeu Zé Eduardo para o senado, Jaime Lerner para o Governo (duas vezes), Rafael Greca para a prefeitura de Curitiba, Antônio Belinati para a prefeitura de Londrina e Cássio Taniguchi (duas vezes) para a prefeitura de Curitiba. Querem mais? Através da GW, (sendo o W de Wianey, lembram?) a produtora que nasceu logo depois da campanha de Zé Eduardo, expandiu-se pelo Brasil e venceu com Fernando Henrique à presidência (duas vezes) e com mais umas dezenas de governadores por este Brasilzão afora.
E como diria o velho e bom ministro Ricúpero, num momento de distração, o que é ruim a gente esquece, o que é bom a gente...copia. Pinheirinho e sua GW alçaram vôos tão altos que o Paraná, e seus candidatos amestrados, ficou pequeno. De repente, não tinha aqui campanha com caixa suficiente para custear equipamentos e gente do nível da GW. Qual a solução? Ora, que tal buscar o próprio pessoal do Paraná que trabalhou em campanhas com a GW? Na certa devem ter aprendido o caminho das telas, não é mesmo?

Promessas vãs
Esqueceram os incautos que competência não se copia e, pior, a imitação do talento alheio é sempre uma farsa trágica. Mas, e mais complicado ainda, é que depois de tanta denúncia, de tanto mensaleiro na TV, negando o óbvio, de tanto ouvir o ''não tenho nada com isso'' ou ''vou provar minha inocência'', ou ''prometo esclarecer tudo amanhã'', o distinto eleitor prefere ver o capeta, mas não quer ouvir político fazendo promessa. Pronto, foi para o ralo a imagem bonita, o falar correto, o pôr-do-sol do Paraná velho de guerra cantado em prosa e verso. A estética da imagem perfeita, à cores, compondo a história familiar do candidato em preto e branco, já não produz emoção. Ao contrário, entedia. Que o diga o Geraldo Alckmin e sua Pindamonhangaba natal, campanha aliás, onde está a própria GW de Pinheirinho.
O eleitor quer ver, quando se dispõe a tanto, sangue. Senão, pelo menos o que o candidato fez, na lata. E sem muita firula, por favor, que os tempos são outros. É por isso que o Rubens Bueno na tv perdeu pontos do Rubens Bueno de antes da tv. É por isso que Osmar Dias, transformado num Jaime Lerner com barba branca e cabelo preto, diminui de tamanho diante de um Paraná ávido por mudança. E é por estes mesmos motivos que Roberto Requião, até ontem com rejeição de bruxa malvada em teatro infantil, surge tal qual a noiva mais bonita da temporada. É uma grande bobagem o tal Requião promete, Requião cumpre? Claro que é. O jargão poderia ter sido desmontado com um sopro, se bem colocado na tv, com provas e contra provas, com um programa eleitoral que mostrasse a realidade do Paraná que parou na economia, não criou os empregos que deveria, teve a agricultura prejudicada e a saúde estagnada.
Mas ficou-se aqui apenas com a estética da escola Pinheirinho, sem acrescentar nada. E, como se vê, pôr-do-sol, candidato abrindo mapas ou prometendo mais educação ou mais segurança, não dá camisa pra ninguém.
O que passou, minha gente, passou.

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