NO LIMITE DA HONRA

Amigo de família há muitos anos, o deputado federal Ricardo Barros, do PP de Maringá, reagiu, entre surpreso e indignado, ao ver o nome dele incluído na lista dos 11 deputados paranaenses envolvidos em processos judiciais e publicada aqui, nesta semana. Afinal, o motivo era pueril, uma dívida de imposto atrasado de uma antiga rádio de Maringá, da qual já nem é mais dono, e renegociada. Se o manual da imparcialidade recomenda a nota explicativa, os laços de amizade reforçam ainda mais a velha fórmula de dar espaço para os dois lados da notícia. Mas Ricardo Barros recusou a oferta. Só queria garantir que, na republicação da tal lista, o nome dele viesse acompanhado da justificativa documentada no Supremo Tribunal.
Animal político por excelência, o deputado-amigo de Maringá sabe que uma informação, quando ganha a rua, é ovelha desgarrada, capaz de seguir sozinha, independente, e pior, clonar-se em mil versões, de acordo com o desejo do freguês ou, no caso, do adversário. Precedente mais do que perigoso, ameaçador. Tudo isto posto, e eis aí a espiral de culpa (pela publicação do nome do deputado na lista) e justificativa (afinal, era só um imposto não pago) enredando o trabalho diário.
Ficar com minhocas assim, conturbando a cabeça, afugenta o sono, mas também clareia as idéias. O deslize, a estas alturas já considerado insignificante, do deputado Ricardo Barros, é o retrato mais claro das concessões absurdas que nós, como sociedade brasileira, estamos fazendo para a política brasileira. E essas concessões começam na Justiça Eleitoral, passam pelos candidatos e pela Imprensa e desabam nas urnas.

De erros e complacências

Podemos começar pelo mais óbvio e mais próximo: na semana que passou, o casal 20 da telinha brasileira foi até Brasília e, numa postura mais reverencial do que devoto em missa do Papa, fez uma entrevista onde chamou o presidente, de ''candidato''. Meu Deus do Céu, então o presidente-candidato fala para milhões e milhões de brasileiros de dentro do Palácio do Planalto, e a Justiça Eleitoral deixou passar como se tudo estivesse no mais rigoroso cumprimento da lei eleitoral. Eis aí a Imprensa e a Justiça dando lições óbvias de permissividade, complacência ou, pra não dizer, parcialidade absoluta.
Devemos ser um povinho sem sangue nas veias, mesmo. Mais de 80% dos deputados federais estão envolvidos com processos na Justiça, irregularidades mil e, com exceção do Zé Janene, aquele do mensalão, e por questão de saúde, todos os demais querem nosso voto para voltar ao cargo. Contam, certamente, com a capacidade infinita do povo brasileiro de relevar deslizes, equívocos e afins. Povinho cordial, como já nos chamou Gilberto Freire, mas que poderia ser, também, povinho bobo demais. E tantos ladrões notórios, assumidos, vão surgir no horário eleitoral gratuito sem nenhum aviso de ''cuidado'' abaixo do nome.

Quem é quem?


E, por sermos assim, tão bonzinhos assistimos, praticamente calados, os candidatos ao Governo do Paraná se misturando mais do que arroz e feijão na marmita e, a tal ponto, que fica impossível separar a crítica do passado ao elogio do presente. Pois não era o Requião que, até ontem, denunciava o Hermas Brandão da Tribuna do Senado, ou o Osmar Dias que criticava o Jaime Lerner, o Rubens Bueno que apoiava o Álvaro Dias e o Flávio Arns que se abraçava ao Requião? Empaquei, diria o eleitor mais distraído. Empacamos todos na falta de referencias mínimas para votar com um pouquinho de coerência.
Afinal, ao depositarmos o voto na urna, estamos votando em quem? Em qual grupo? Em que projeto de Governo? Requião, que tanta força fez para se aliar aos tucanos, já esqueceu das privatizações de FHC? Osmar Dias apóia, afinal, o pedágio e a venda da Copel, que Jaime Lerner tanto defendeu? E Rubens Bueno, pegará na mão do Painho ACM?

Onde, o limite?

É neste quadro de todas as cores e crenças que teremos que escolher o melhor. Ou o menos pior, na expressão do português ruim. É neste quadro que uma jornalista já passada dos anos, habituada a encarar os desvarios de candidatos dispostos a tudo, pode se sentir culpada por escrever o nome de um deputado-amigo que lá no passado deixou de pagar impostos. Crime pequeno? Não, muito grave para quem se apresenta como defensor da causa pública. Como tantos outros pequenos e grandes desvios de conduta política.
Mas compreensível: estamos todos vivendo, Senhores, no exato limite da honra. Um pouquinho mais pra lá, talvez.

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