RUTH BOLOGNESE
Vamos e venhamos, quem há de condenar um governante que viaja por uma semana para descansar depois de uma rotina estafante durante meses no exercício do cargo? Mesmo que este governante utilize o avião, assessores e até segurança, o que constitucionalmente está à disposição dele, inclusive nas férias. Algo errado? Absolutamente nada.
Mas a semana que passou girou em torno da viagem, anunciada de última hora, do governador Roberto Requião para Buenos Aires. E uma sucessão de trapalhadas, de todos os lados, levou a versões mais que mirabolantes, inacreditáveis até.
O excesso de cuidados da assessoria mais próxima levou o Palácio Iguaçu a divulgar que o governador foi a Córdoba, onde estaria trabalhando e assinando convênios com o Departamiento vizinho. Tentativa inútil, ingênua e desnecessária para mostrar um super-homem chamado ''Trabalho'' que só viaja para fechar negócios e convênios em prol do Paraná.
Por baixo dos panos, já corria solta a versão de que o governador Requião estava em Buenos Aires em companhia de dois assessores próximos ao gabinete, Jacir Bergmann e Gika Gulin. E começavam as especulações.
No dia seguinte já existiam novas histórias e novas versões com direito até a fotos. Via internet, através de um site escrito e mantido por um inimigo figadal do governador, começou a ser divulgada uma foto escura, sem qualquer definição, onde dava pra distinguir apenas uma costeleta grisalha vendo um show de tango em Buenos Aires. Pronto, eis aí, o governador Roberto Requião em plena noite portenha, aproveitando o show em boa companhia.
Novamente, o Palácio Iguaçu foi a campo desmentir a foto, a informação, o show de tango, a boa companhia e até a costeleta grisalha. O PMDB chegou a acionar a Justiça contra o site. Mas aí começava a valer muito mais a versão do que todas as tentativas palacianas de esclarecer os fatos. E simplesmente porque a versão é sempre mais interessante.
Para complicar mais ainda as notícias e contranotícias, a ''Folha de São Paulo'' divulgou o telefonema dado de Buenos Aires pelo governador Requião ao presidenciável Geraldo Alckmin, em que ele tentava obter apoio graúdo e amarrar por cima a coligação local, do PSDB com o PMDB, hoje, mais ou menos sub júdice. Nada mais natural, a estas alturas, do que um telefonema de um governador para um quase-futuro-próximo-aliado. Mas aí entrou em ação adivinhem quem? O Palácio Iguaçu, ora bolas, tentando convencer a imprensa paranaense que o telefonema partira de Geraldo Alckmin. Ninguém acreditou, obviamente. E pior, acrescentou-se nova versão da conversa, com Requião oferecendo tudo e mais um pouco para Alckmin ajudar a manter a aliança PSDB/PMDB. E com riqueza de detalhes, como por exemplo, o fato de o governador estar tomando um tinto de R$ 9 mil, isto mesmo, R$ 9 mil reais a garrafa, enquanto discava no celular o número do tucano paulista. Até a reprodução da tal garrafa surgiu na internet.
Resumo das trapalhadas: chegou-se ao começo da noite de sexta-feira com um Governador perigosamente acompanhado, deitado no berço esplêndido das mordomias portenhas, abusando do avião público, pagando preços estratosféricos por um tinto durante show de tango em My Buenos Aires Querido, telefonando para um neoliberal tucano e oferecendo o seu próprio partido de bandeja em troca de dois minutos diários nos programas eleitorais que se avizinham.
Verdades e versões fantasiosas se confundiram, e depois que tomaram a forma de letras impressas ou cochichos debaixo dos panos, não existiu informe oficial ou não oficial do Palácio Iguaçu capaz de segurar a onda.
Agora, francamente, não teria sido muito mais fácil o governo divulgar, oficialmente, que o governador Roberto Requião foi descansar por 10 dias em Buenos Aires em companhia de dois assessores e um ordenança?





