RUTH BOLOGNESE
UM BOM CANDIDATO, MAS...
Pode ir cuidar das próprias pernas, Osmar Dias. Chame o caminhão de mudança pra granja do Canguiri, Roberto Requião. Vá cozinhar os carneiros no buraco, Rubens Bueno. O candidato mais viável ao governo do Paraná é sobrinho do aguerrido arcebispo vermelho, Dom Paulo Evaristo Arns, de uma bi-candidata ao prêmio Nobel da Paz, a médica Zilda Arns e do educador mais respeitado da capital, o Frei Crisóstomo, fundador do Colégio Bom Jesus. É também pai de família exemplar (tem um filho deficiente já adulto) e elegeu-se senador pelo Paraná numa campanha sem dinheiro, beneficiado por um (raro) momento de lucidez dos eleitores paranaenses.
Trata-se, como se sabe, do pré-candidato do PT, Flávio Arns, que do ponto de vista de biografia inatacável e do tal engajamento em causas sociais, supera todos os demais candidatos ao governo que se apresentaram até agora. Além de tudo isso, Arns ainda tem uma militância petista que não deve ser desconsiderada, espalhada por todo o Estado.
E o tal carisma?
Então, como perguntaria o indiferente político, temos aí um candidato imbatível para governo do Paraná? Nem tanto, nem tanto. Apesar da biografia inatacável e do pedrigree (no bom sentido) familiar, Flávio Arns tem lá seus probleminhas. Está para o eleitorado paranaense como aquele moço que toda a família aprova para casar, os vizinhos torcem, os amigos empurram mas a moça, mesmo querendo e sabendo que terá um marido tranquilo e praticamente sem defeitos, hesita. Suspira a moça, lamenta, mas conclui que sem tesão não há solução.
Arns costuma pedir voto no tom inconfundível dos padres mais antigos, naquela voz meio fanhosa, mais pro feminino, que nos remete ao confessionário e aos sermões das missas de domingo. Não impõe respeito na defesa de argumentos, mesmo que sejam bem mais objetivos e cheios de razão perto da papagaiada masculinizada de um Roberto Requião e de um Osmar Dias.
Mas o problema maior de Flávio Arns não está nem na falta de carisma, nem na ausência da persuasão vocal. Está na postura que adotou no ano terrível de 2005, quando o partido dele se enredou nas denúncias de escândalos por toda a parte: passou quase despercebido em Brasília, quase um nada se comparado à fúria implantada de Álvaro Dias. Está, portanto, naquela zona do agrião onde sempre um gaiato vai observar o ''dize-me com quem andas...''
E finalmente, mas não menos importante a considerar, Flávio Arns é senador pelo PT do Paraná onde, nesta semana, o governador Roberto Requião já deu um chega prá lá nos tucanos ávidos por uma coligação, auto declarando-se como o grande coordenador da reeleição de Lula na região Sul. E o próprio Lula já deixou claro, na última visita ao Estado, nesta semana, que continua sentindo aquela coisa de pele por Requião, algo assim que os uniu na campanha passada e pode até voltar com mais força em outubro.
Eis aí porque o Paraná, tal como a moça sem paixão, tem um bom candidato ao Governo mas sem chances de chegar lá. Eleição é sempre uma caixinha de surpresas.





