Quando o governo mente



A gente até perdoa um certo dourar da pílula do governo, um elogio mais apelativo quem sabe, até porque nesta vida, sem um pouco de auto-estima, não dá pra ser feliz. O que fica difícil de aguentar é a tal da falta do respeito. O governo Roberto Requião, na era da reeleição, se comporta como se o eleitor fosse criança. E pior, criança de colo, disposta a rir das macaquices mais ridículas e a acreditar no ilusionismo mais basicão.
Não é engraçado. É grave.

Fora as notícias da Copa e o vandalismo dos sem-terra, ações bem sucedidas feitas pela própria polícia do Paraná na área da segurança, nesta semana, mostram a falta de respeito com que o cidadão paranaense vem sendo tratado. Primeiro foi a descoberta de uma central de comunicação telefônica num endereço banal de Pinhais, cidade grudada nas barras de Curitiba. De lá, um cidadão de nome ítalo-americano, Jefferson Frank Spagnuolo, comandava verdadeira rede de venda de telefones celulares para presídios de todo o Brasil e realizava teleconferências com a participação de até 10 presos por vez. E não eram teleconferências humanistas, de auto-superação ou mesmo de simples trocas de experiências entre pessoas nas curvas da vida. Eram encontros cibernéticos para preparar assaltos e roubos.
Depois o próprio Marcola, o chefão do PCC, revelou aos deputados que foram ouvi-los em Presidente Bernardes que pretendia comprar uma fazenda no Paraguai. E na sexta-feira a polícia descobriu em Cambé, ali, bem lado de Londrina, um arsenal de granadas, fuzis e o escambau que iria abastecer os morros do Rio e o tráfico internacional de drogas.
A prisão do tal Spagnuolo e os dois fatos seguintes trouxeram luz para uma situação nebulosa, ocorrida justamente no macabro comando do PCC que aterrorizou São Paulo por um dia e provocou rebeliões simultâneas nas prisões fronteiriças do Paraná, todas na região de Foz do Iguaçu. Sobre as rebeliões locais, o governo do Paraná veio a público garantir que uma coisa era uma coisa e outra coisa era outra coisa. Ou seja, a liderança do terrorismo do PCC não alcançava a bandidagem hospedada aqui, mais propensa a aproveitar uma oportunidade para obter regalias do que seguir comando alienígena. Os paranaenses podiam, portanto, dormir na paz segura de quem tem como presos uns poucos bons bandidos, mais oportunistas do que quadrilheiros.
Não era verdade. Os ''aparelhos'' desmontados pela polícia em Pinhais deixaram claro que nem o Paraná é uma ilha no sistema prisional brasileiro nem está livre de virar refém de um comando que tranquilamente discute, por teleconferência, detalhes de como, onde, porque e qual o assalto deve ser realizar primeiro.
É preciso ter claro, sempre que, através do nosso Estado, o Brasil se encontra com a Argentina e o Paraguai e do Paraguai saem as armas que vão instrumentalizar a violência no resto do País. Que ilha de tranquilidade somos, afinal?

Fragilidade e insegurança

É segredo de polichinelo que o governo estadual dispõe de um sistema de escuta telefônica que tem até nome correlato ''Guardião'' apto a gravar 600 conversas simultâneas e que as degravações destes diálogos alegram o lazer de autoridades interessadas em minúcias pessoas. E até fazer uso delas, quando as intrincadas relações políticas se apresentam desfavoráveis. Foi um sistema comprado legalmente, autorizado pela Justiça, e que deveria estar sendo usado justamente para proteger cidadãos. Ou, até para flagrar teleconferências em sucursais de presídios.
Mas, enquanto o tal ''Guardião'' só foi capaz de flagrar o óbvio só depois de alertado pelo terrorismo do PCC, o governo prefere mentir publicamente, excluir os presídios paranaenses da rede criminosa e garantir o que não pode oferecer. Com isso, fragiliza ainda mais uma sociedade que vive de percalço em percalço em termos de segurança. E, ao contrário do que pretende, gera mais desconfiança e mais descrédito da população para com o governo que a representa.
Afinal, qualquer criança pode ser enganada uma, duas até três vezes. Mas, mais dia, menos dia, ela aprende em quem pode confiar. E, principalmente, em quem não deve confiar. Nem votar.

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