RUTH BOLOGNESE
Sem vocação para o embate
Dizem que, se um curitibano encontrar a mulher dele na cama com o amante, fecha a porta do quarto com cuidado e vai tomar café na Boca Maldita porque não fala com estranhos. Se o amante for conhecido, cumprimenta e mantém a ida à Boca, para não chamar a atenção dos vizinhos e amigos.
Nos tempos que correm, traição conjugal não é mais bicho-de-sete-cabeças e nem motivo de separação e morte porque, se o fosse, poucos casamentos sobreviveriam. Mas a piada, como sempre, mostra o comportamento do curitibano e do paranaense em geral. Somos um povo pouco afeito a conflitos e confusões. Enquanto os gaúchos vão a cavalo até o Rio de Janeiro e amarram o bicho no obelisco pra defender as idéias deles, nós nos escondemos atrás do toco para não ter que ir junto.
Isso é do povo, e se reflete em nossas lideranças. Nossa bancada de deputados e senadores em Brasília, com raríssimas exceções, é uma das mais inexpressivas do País. Tão inexpressiva que, só para dar um exemplo, a agricultura paranaense pede água num dos piores anos da década e o ministro Roberto Rodrigues nunca veio aqui nem dizer ''sinto muito''. E olha que somos o Estado líder em produção de alimentos.
Quietos e mal pagos
Nesta semana, mais uma vez esta aversão ao enfrentamento direto e combativo se fez presente. Na área política, como sempre mas, também, empresarial, onde o bolso arde mais do que qualquer outra parte do esqueleto. Cinco meses antes da eleição, o governo Requião quis se exibir para o povão, deu uma de Anthony Garotinho e apresentou projeto do salário mínimo mais alto do País, numa atitude onde demagogia é troco. E as três maiores lideranças por setor no Paraná, Ágide Meneghetti (Agricultura), Rodrigo Rocha Loures (Indústria), Cláudio Slaviero (Comércio) ficaram na base do ''Ah,é?'', foram dialogar com os deputados na Assembléia Legislativa para, quem sabe, conseguir baixar um ou dois reais no mínimo. Ficaram no papel de guris dentro da sala de aula tentando ganhar nota mais alta em prova oral. E não conseguiram nada.
Este é mais um pequeno exemplo, apenas. Tem milhares. O ex-governador Jaime Lerner jogou tubos de dinheiro do Tesouro, liberou impostos, se curvou diante das montadoras e multinacionais, e quando via um empresário paranaense à míngua, passava reto. Nunca ninguém disse um ''A''.
Contra o próprio quintal
Mas mais ainda do que este pseudodebate sobe salário mínimo, o que chocou nesta semana no Paraná foram duas atitudes do governador Requião, que mostram o quanto um governador eleito constitucionalmente para representar 10 milhões de paranaenses atua contra a economia do seu próprio quintal.
Sem qualquer necessidade e até porque ninguém lhe pediu opinião, Roberto Requião foi o primeiro governante do mundo a se solidarizar com a ocupação das refinarias de gás da Petrobrás, na Bolívia. Uma posição irresponsável diante do simples fato que a indústria cerâmica do Paraná, na região de Campo Largo, e que tem o gás boliviano como fonte de energia, emprega 8 mil pessoas. Parece irrelevante? Não é. É gravíssimo, como toda e qualquer atitude de um governante que vai na contramão da criação de empregos, a chaga maior que nos atinge.
Na mesma semana, a Audi-Volkswagem anunciou redução de produção e a consequente demissão de 1 mil 500 funcionários, que poderão ser os nossos, daqui mesmo, do Paraná. E diante de tal previsão, o que fez o governador Requião? Nada. Nenhuma declaração, nenhuma puxada de orelhas na Audi-Volkswagen, nenhum ''espera aí, Gente, também não é assim''.
Uma coisa leva à outra. Nossa atávica aversão ao conflito, ao embate, abre caminhos para governantes a agirem como se fizessem parte de outro mundo, ou de outro país ou estado, completamente desgarrados da realidade local. E sem ouvirem um pio de protesto ou reclamação. Para eles, o paraíso. Para os que representam, terra arrasada. O político deve estar sempre onde o povo está? Aqui, pelo jeito, já perderam até nosso endereço.





