RUTH BOLOGNESE
Se Judas não traiu...
Como diria o presidente playboy, Fernando Collor, o tempo é o senhor da razão. Mesmo. Bastou um manuscrito de quase 2 mil anos ser decifrado, nesta semana, nos States e foi por água abaixo o traidor-mor dos evangelhos, Judas. Pelo jeito, tudo não passou de uma bela estratégica de marketing para vitimar Jesus diante de um povo que precisava de algo mais para aderir ao cristianismo. O resto da história todo mundo está careca de saber. Se Judas e Jesus estavam de combinação, então minha gente, se faz necessário, com urgência, analisar mais detalhadamente a grande traição da nossa história, quando Joaquim Silvério dos Reis entregou seu xará, Tiradentes, à coroa portuguesa. Vai ver que tudo o que Tiradentes queria era ter seus restos mortais salgados e preservados nas terras mineiras para que se fizesse justiça no futuro: sim, ele era mais bonito do que o governador de Minas, Aécio Neves.
Diante de trairagens reduzidas a golpes bem sucedidos de marketing, a história das atuais traições petistas pode virar pó em pouco tempo. Judas teve que esperar 2006 anos para que uns papiros em frangalhos trouxessem dúvidas sobre a real participação dele na Era Cristã. Pelo que se conhece da política brasileira, os Delúbios Soares, Zé Dirceus, Paloccis, Dudas e Valérios poderão ressurgir no prazo de uma reeleição para ter a idoneidade recuperada. Diante da constatação de que agiam em combinação para que o presidente Lula se transformasse na vítima inocente de grande traições, poderão ser os heróis aclamados pós-reeleição. Alguns, como João Paulo, o ex-presidente da Câmara, já se safaram antes. Mesmo sem papiros reveladores, o tempo poderá trazer a conclusão que nunca roubaram, nunca mentiram. Apenas transformaram Lula na grande vítima ignorante de tantos crimes. É um pesadelo? E Judas não o era também?
Traições cotidianas
Por enquanto, aqui na fronteira campesina que nos cerca, o momento é de lesa-canela, onde as lideranças dos partidos ainda agem internamente, distribuindo sopapos para tudo quando é lado e, muitas vezes, fazendo do fogo amigo a grande arma da batalha. Pequenas traições cotidianas.
Na semana que entra, uma história escabrosa da quebra do sigilo bancário de um ex-assessor do deputado federal Gustavo Fruet (PSDB), deve ser colocada na mesa, devidamente patrocinada por aliado de antanho e adversário de agora. O objetivo é matar na casca uma candidatura ao Governo que pode ser o ''algo novo'' desta campanha, onde a idade média dos concorrentes assumidos se aproxima da quarta idade.
Mas já tem troco: cópias de depósitos bancários de assessores de alto coturno do Palácio Iguaçu já estão circulando por aí e podem se espalhar irremediavelmente na medida em que o lado de lá avançar nesta linha. Nada ainda veio a público, por questão de sobrevivência. Cada um pula num pé só e aguenta em silêncio o chute na própria canela.
Candidatos, quando ungidos, lavam e esfregam a craca das lutas internas, perdoam e beijam na face o ferrenho adversário de poucas horas atrás, porque vão precisar de toda a união partidária possível para vencer a batalha mais ampla, a do eleitorado.
Por isso que em política (e parece que em religião também) tudo é muito relativo e o inimigo de ontem pode ser o salvador da pátria amanhã. Judas, Tiradentes, companheiros de Lula em geral, ex-companheiros de partido ou pequenas traições abjetas se transformam em golpes de marketing para fazer a cabeça do crédulo ou do eleitor. Ou seja, ''nóis''.





