Órfãos do exemplo

Um jovem funcionário da Justiça do Paraná, Márcio Augusto Guimarães Barbosa, está implorando, via Internet, que testemunhas de um acidente ocorrido na madrugada de sábado, numa rua central de Curitiba, se apresentem para depor. O acidente matou a namorada dele, Alessandra, bela advogada de 27 anos que perdeu a vida num momento bom, promissor.
No desespero, o namorado ameaça fazer justiça com as próprias mãos contra o motorista que freou 25 metros antes de atingir a moto onde estava Alessandra.
Para uma grande cidade, o acidente e todas suas consequências dolorosas fazem parte do cotidiano. Para todos os demais envolvidos, famílias e amigos, é dor perene e definitiva.
O que nos diz respeito, como cidadãos, é o fato de o namorado de Alessandra ter que implorar por testemunhas. Vamos ser sinceros: quem de nós iria até uma delegacia depor contra um motorista infrator, mesmo diante de uma causa tão justa? E não são exatamente o incômodo e a perda de tempo que nos distanciam, cada vez mais, da característica primordial da civilidade humana, a Justiça: o que está na raiz de tudo é a certeza do inútil. Exercer a cidadania num País onde o político mais reba, notadamente ladrão, sai ileso, apto a captar votos na próxima eleição, virou sinônimo de bobice, ingenuidade extremada.


Contradição vergonhosa

Não precisamos ir muito longe. No Paraná, só para ficar num exemplo, gente como o deputado José Janene (PP), comprovadamente repassador de mensalões e mensalinhos, está aí até hoje, recebendo o salário na Câmara. Para um José Borba (PMDB), que perdeu o mandato, uma leva de petistas, peemedebistas, ex-secretários de fazenda, ex-deputados, ex-prefeitos, ex-tudo quanto é coisa, que todo mundo sabe, ou melhor, tem certeza que enfiaram a mão, o pé e o corpo inteiro no jarro, circulam como cidadãos de primeira classe.
E para um Osmar Serraglio (PMDB), que dignifica cada um dos votos que recebeu na região de Umuarama como relator da CPI dos Correios, um Ministério Público inteiro se finge de morto, quando um assunto delicado como o nepotismo, por exemplo, atinge a área oficial mais graduada, o terceiro andar do Palácio Iguaçu. A ordem, contraditória por excelência, é: exige-se a demissão imediata do primo do vereador do Cafundó do Judas e cumprimenta-se respeitosamente o alto funcionário nomeado de sobrenome que, está na grafia, é importante.
E, diante de descalabro generalizado, o que acontece é a velha e máxima certeza do ''cada um por si e Deus por todos''. Mas, se a atitude é individual, tanto do político corrupto, do deputado enrolador ou do promotor indiferente, o mal é coletivo. E se reflete lá na frente, na atitude do namorado que perdeu a namorada num acidente de trânsito e não consegue uma testemunha que venha contar a verdade. Diante da impossibilidade de obter justiça através da lei, ele ameaça agir sozinho. E aí, vão se misturar dor, solidão, saudade e até desejo de vingança, componentes perfeitamente compreensíveis numa situação emocional como esta, mas péssimos conselheiros na busca de Justiça.
O rapaz curitibano que sofre a perda da namorada está sozinho, é órfão de bons exemplos éticos que deveriam começar lá na presidência da República, nos Supremos Tribunais, no Congresso e se espalhar pelos Palácios e Casas de Leis pelo Brasil afora.
Ele é órfão e nós também.

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