Ninguém me contou, não. Eu vi. E ouvi. No trecho da praia de Leste mais familiar do litoral do Paraná, onde até a Vó Maria toma banho de mar em maiô de sutiã pontudo, um siciliano de meia-idade, sem dizer nem bom dia em português, comia ávido, e pela primeira vez na vida, pata de caranguejo cozida na água com tempero de manjericão e alfavaca.

Até aí, sorte do siciliano.

O que estava errado na cena era a acompanhante dele: uma garotinha com uma pele morena de dispensar filtro solar ao meio-dia, cabelos quase pixaim na cintura e uma carinha de obrigar qualquer leão-de-chácara pedir carteira de identidade até para matinê dançante. A menina, seguramente, não passava de 15 anos. E a história do casal ninguém precisava perguntar: turismo sexual explícito que atende agora pelo nome de ''encontro marcado pela internet''. Ela contou.

Quem pensava no Nordeste brasileiro como um dos mais requisitados roteiros de estrangeiros de meia-idade em busca de diversão completa, já era. Meninas brasileiras do Sul Maravilha, quase sempre morenas por exigência do freguês, adolescendo ainda, também estão neste mercado que reúne garantias imbatíveis para o lucro imediato: mercadoria barata e abundante, pagamento em euros e complacência oficial.

Quem passa pela Serra do Mar, no trecho paranaense, vai encontrar cartazes de alerta sobre o turismo sexual infantil. É parte das campanhas que se faz no Brasil, de vez em quando, para dar a impressão que o Governo está alerta sobre um ou outro problema do gênero. Puro marketing. Há um contra-senso absoluto entre o que se prega e a realidade dos fatos, tal qual, para ficar na área de sol e calor, as campanhas de alerta sobre o perigo do câncer de pele que aparecem em toda temporada de verão: o preço do filtro solar no balcão e a Juliana Paes desfilando a morenice na TV reduzem a pó qualquer conselho médico. Ou alguém já viu, nos 8 mil quilômetros do nosso litoral, em meados de janeiro, uma praia vazia ao meio-dia?

Da mesma forma que, enquanto se condena o abuso sexual infantil em cartazes pelas estradas brasileiras e em campanhas na TV, o refrão mais ouvido no rádio neste verão é uma voz infantil cantando em ritmo insinuante: ''Tô ficando atoladinha, tô ficando atoladinha...'' A música, lixo puro, só é mais um item na propaganda para vender o fetiche de que pré-adolescentes engraçadinhas adoram iniciar-se sexualmente com senhores de barba grisalha e abdômen proeminentes.

Que o diga o siciliano gordo de meia-idade que sugava, satisfeito, as patas do caranguejo cheirando a manjericão e alfavaca na praia de Leste na semana ®PR1190¯passada. Do ponto de vista dele, o paraíso é aqui mesmo: praia bonita, comida boa e barata, mulher jovem e bonita, quase de graça e limpinha. Do ponto de vista da menina, nada pior do que observar o siciliano babando o prazer da noitada por antecipação. Ela virou para o lado a carinha de nojo. Isso eu vi.

Na prostituição real, o ''tô ficando atoladinha'' não tem sentido erótico nenhum. Não passa de música ruim mesmo.

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