Discutindo a relação


Então, sobre as reações do povão com suas lideranças políticas chegávamos em Roberto Requião, quando o artigo de domingo passado foi interrompido, inesperadamente, por dois motivos: 1) pelos cálculos da Universidade de Massachussets, o leitor de artigos leva exatamente 2 minutos e 45 segundos para coçar o alto da cabeça, quando começa a se entediar, e aí é hora de interromper a escrita para não chegar à fase do nojo. Num teste inicial, o porteiro do prédio aqui levou a mão à cabeça já na leitura do título do artigo ''Discutindo a relação'', que lhe soou como ''alguma coisa meio sem-vergonha'' no sentido literal.
E o segundo motivo para a interrupção da análise psicológica da relação povão-líderanças políticas é que o molho do macarrão já fervia há horas na panela e era preciso apurar. A família Bolognese pode até perdoar deslizes analíticos em artigos dominicais, mas jamais perdoaria molho fervido além da conta.
Agora, vamos lá: com Roberto Requião, que o Paraná inteiro adóóóra odiar, o comportamento do eleitor sempre teve um quê de vingança. Diante de um Jaime Lerner que não reagia nem diante de beliscão de Dona Fani, o eleitor vinha de Roberto Requião que, se levar um beliscãozinho de Dona Maristela é capaz de reduzir o Benedito Pires (que sempre está por perto) a pó. Estapeando. O povão, na verdade, sempre elegeu o Requião só pra ver no que dava. E sempre deu pouco, muito aquém das expectativas.

Prefeitos

Com os prefeitos, o relacionamento da massa é mais próximo, mais dependente e até mais paciente: Rafael Greca, por exemplo, era considerado o sobrinho muito inteligente, criado por três tias, de voz de padre e gestos suaves. A melhor saída: deixar que brincasse um pouco de prefeito, se sentisse Nero em Roma e pronto, passou.
Veio o japonês Cássio Taniguchi. Formado no ITA, a escola-símbolo dos cálculos matemáticos, virou um gerente da cidade. E o gerente, sabe como é, a gente conversa, pede desconto, até elogia a eficiência, mas assim que sai da loja, esquece dele. Foi o que houve. E agora, o Beto Richa? É o filho do Zé Richa e um guri muito especial. É, por enquanto, é só isso.

Em Londrina

E finalmente chegamos a Londrina e seu atual prefeito, o petista Nedson Micheleti, inspiração maior do assunto que se estendeu por dois domingos. Afora os assessores mais próximos, e os petistas mais resistentes, desde que comecei a escrever para esta Folha, há um ano e meio, não encontrei um Cristo que falasse bem do Nedson. O maior elogio, até hoje, foi que ''é uma alternativa ao Belinati''.
Nos cinco anos de convivência diária com a cidade, Nedson não conquistou nem um olhar de compreensão da Rainha do Café, nem mesmo no período de luto que atravessa pela morte da mulher, Regina. Não há complacência.
Num período de inferno astral, em que até um filho dileto da terra, o Arrigo Barnabé, dá um cano federal na festa de aniversário de 71 anos da cidade, muita gente de Londrina só consegue ver lixo na rua, denúncias de Caixa 2, insegurança e desalento.
Quando tudo fica ruim, os casais procuram salvar a relação com uma segunda lua-de-mel, a compra de um bem, uma gravidez e até mesmo uma grande e saudável briga. No caso de um prefeito desencontrado com sua cidade, o único caminho é mostrar serviço. Pode começar com uma boa limpeza geral em Londrina, por exemplo. Assim como entrar numa casa com cheiro bom de limpeza (e se tiver cheirinho de pão assando no forno, é o céu), andar por ruas limpas já reconforta. Se pintar o meio-fio de branco, ajuda muito mais.
Ninguém aqui quer ensinar o padre a rezar missa, nem dar assessoria de graça para prefeitos em crise. Mas, às vezes, os governantes se preocupam tanto com grandes transformações quando bastam pequenos detalhes para melhorar o dia-a-dia do povão.
No amor também é assim.
Até Janeiro
Aproveito o domingo de Natal para desejar a todos muita felicidade. Volto só em janeiro. E já estou sentindo falta.

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