Discutindo a relação

A gente fala muito no carisma, no jeito de líderes e políticos se relacionarem com o povão, fator de excepcional importância na carreira de quem estabelece como meio de vida pedir e obter voto sem pôr a mão no bolso. Mas pouco se fala, ou quase nada, na forma do povão se relacionar com eles. É claro que pagar psicólogo para deitar a massa no divã afundaria qualquer economia bem sucedida, que dirá a nossa. E faltaria divã, tipo de sofá tão ultrapassado quanto bule de café com bico fino. Quem vê a casa da Bia Falcão em Belíssima, sabe do que se fala.
Com ou sem psicólogo, tomando café de bule modernoso ou não, o fato é que o povo se comporta de uma maneira diferente diante de cada prefeito, governador ou presidente da República. Vamos começar por cima: no final do segundo mandato, nenhum brasileiro por mais ''anarfa'' que fosse, aguentava mais as frases de sociólogo de FHC. Era a rejeição da longa convivência e nada comparado ao desprezo coletivo por José Sarney. Ninguém morre de amores por FHC até hoje, mas de Sarney é bom nem falar. Itamar Franco continuou sendo, para a grande maioria, um mineirinho tão abobalhado diante de uma fogosa admiradora que se deixou fotografar ao lado da própria, nua em pêlo, em pleno Carnaval carioca. O presidente Lula provoca duas reações nos brasileiros, sendo a primeira a da elite que se jacta em reafirmar que nunca se enganou com o operário. A outra é de todos que fecharam os olhos na hora de votar, fantasiaram com aquela história de trocar o medo pela esperança e hoje colocam sorvete na testa.

Aqui em casa

Aqui no Paraná, desde que o Maneco desembainhou o facão, o povão reage diante de seus governantes de variadas maneiras. Dos mais recentes, como Ney Braga, havia um distanciamento obsequioso, diante do fato que ninguém sabia medir até onde ia o poder dele nas cercanias de Brasília e dos quartéis. Foi mais temido, respeitado, do que amado. Outro que foi mais temido do que amado em função do seu caráter absolutista e turrão foi o Jaime Canet Junior. Paulo Pimentel, com suas covinhas e óculos de aro preto (meu tio Dito, lá de Umuarama, se achava parecido com ele, mas igual era só o óculos), conseguiu se identificar junto ao povo com o Paraná jovem e em pleno desenvolvimento, mas não soube aproveitar a deixa e não conseguiu voltar ao Palácio Iguaçu. Mesma situação do Álvaro Dias, de quem o povo não acumulou ódio nenhum, mas também se mantém distante. Não existe aquela coisa, assim, de pele, de amor (ou de ódio). É tudo meio morno.

E Jaime Lerner? Bem, o arquiteto curitibano, de idéias mil, que fala francês e conhece (até hoje) mais Paris do que Londrina, foi o governador que despertou no paranaense aquele lado clean, moderno, chic mesmo. Perto dele, o nosso lado ''assembréia'', como diz o presidente da Assembléia Legislativa, Hermas Brandão, teve que ser substituído por expressões mais sofisticadas, na base do ''escargot marinado'' e ''anel de integração''. Passar vergonha, o Lerner nunca nos fez passar, nem diante dos franceses da Renault, nem dos italianos, americanos, alemães e escandinavos que vieram na onda da industrialização. E por medo de passarmos vergonha diante dele, nunca perguntamos direito o que exatamente ele estava negociando com este pessoal todo. Resultado: até hoje não sabemos. Talvez por isso Jaime Lerner ficou 8 anos no Palácio Iguaçu e não deixou ninguém morrendo de saudade.

Percebo que já escrevi um catatau e nem cheguei no atual governo, onde EL Supremo reina com toda a dinastia dele. Para não cansar o leitor, vou deixar para a próxima semana, onde vão entrar na roda Cássio Taniguchi, Rafael Greca e ninguém mais, ninguém menos do que Nedson Micheleti.

O caminho agora é a cozinha, onde o molho do macarrão à bolognesa ferve em fogo lento.

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