CELEBRIDADES À BRASILEIRA

Cassado pelos políticos, rejeitado pelo governo e abandonado pelo melhor amigo, Lula, o ex-guerrilheiro Zé Dirceu já sabe o que vai fazer da vida: será palestrante e cobrará por isso, na mesma linha do príncipe dos sociólogos, Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente que não fez o sucessor e deixou o governo com o ibope bem pra cá de Marrachech, hoje não coloca os pés em cozinha de ninguém sem receber R$ 150 mil dos reais inventados por ele mesmo.

No Brasil é assim. Primeiro, reduz-se o sujeito a pó, vota-se contra, pisa e cospe por cima. Depois, fica todo mundo com culpa no cartório, e eis que surge uma nova celebridade à brasileira. Sem nenhum preconceito. É só lembrar de Delfim Neto, o execrável e maquiavélico Dr. Nô que, por pouco, muito pouco, não nos vendeu para o FMI, recebendo até hoje tapete vermelho em federações de empresários de todo o País na qualidade de ex-ministro da ditadura. Outros vieram, e só para ficar na área econômico-financeira, vejam agora o ministro da Fazenda de José Sarney, o Maílson da Nóbrega, aquele mesmo do ''arroz com feijão'' na economia, que bateu todos os recordes de inflação no Brasil e agora vira personagem da ''Veja'' com suas análises sobre... ora, sobre como salvar o País pela via econômica.

Na área social, então, nem se fala. Aquela moça, a Luciana Gimenez, anos atrás montou uma arapuca para o Mick Jagger, atraiu-o para um lavado apertadinho e zás, tráz, eis mais um bobão obrigado a comparecer com pensão alimentícia milionária. Se o roqueiro inglês tivesse lido a Bíblia, saberia que as mulheres, desde Eva, cobram muito caro mesmo por uma mordida rápida na maçã. Até aí, nada de novo. O surpreendente é que a tal Gimenez virou apresentadora de TV em pleno boom brasileiro de gravidez adolescente. Dá exemplo de como vencer na vida usando atributos abaixo da linha do equador.

Aqui mesmo, na terra dos pinheirais, um empresário da noite, de apelido infantilóide, ''Bubba'', saiu direto do Big Brother Brasil para a Penintenciária Central do Estado por causa de uns pacotinhos de ecstasy flagrados na mochila. Liberado, agora é atração de festas, frequenta colunas sociais e deve até retomar a idéia de sair candidato a vereador em Curitiba.

Por tudo isso, é claro que Zé Dirceu só poderia pegar o caminho das palestras bem pagas para sobreviver sem o salário de deputado. Tem no currículo o item indispensável para alcançar sucesso no Brasil: foi flagrado, publicamente, cometendo um grande equívoco. Não tem erro.

Pelo jeito, somos uma sociedade que se curva ao fracasso, perdoa a falcatrua, dá moleza ao infrator. Bastou o Paulo Maluf mostrar olhos lacrimejantes na TV e eis que dois dias depois já estava tomando cervejinha gelada nas belíssimas montanhas de Campos de Jordão.

Esta ética maleável leva, também, a atitudes pessoais inconformadas (e condenáveis), como a do bengaleiro paranaense que se insurgiu contra Zé Dirceu. E, numa escala muito mais trágica, aos traficantes-justiceiros que mataram os 4 incendiários do ônibus poucas horas depois do atentado no Rio de Janeiro. Dois episódios tão distantes e diferentes entre si, mas que levam à mesma conclusão: na ausência de referências éticas e morais, a sociedade acaba por usar as próprias mãos, espiral ineficaz que retorna ao ponto de partida, com mais força e mais violência.

A pior sensação diante de tudo isso? É a certeza que vai ficar pior ainda.

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