RUTH BOLOGNESE
Reeleição é como marido-galinha
A reeleição está para a política brasileira mais ou menos como a segunda tentativa para um casamento que já foi pras cucuias há muito tempo. Os dois lados fazem um esforço descomunal para dar certo e logo depois concluem que os problemas e defeitos continuam os mesmos e a única coisa que mudou foi a paciência, agora sim reduzida a zero.
Nesta semana uma simples notícia sobre o prefeito Nedson Micheleti (PT) de Londrina, despertou insatisfação entre os chamados ''formadores de opinião'' da cidade. Sabe aquela revolta contida, quieta, que explode assim, sem mais nem menos? Foi isso. Pelo volume de gente que se dispôs a mandar e-mails para a coluna condenando o pedido de paciência dá para medir o nível de irritação do londrinense com os 5 anos de PT na cidade. Ou seja se, por um lado, o povo até entende que há, hoje, uma situação específica conduzindo as ações do prefeito, por outro lembra que no primeiro mandato não havia problema pessoal e a gestão foi ruim do mesmo jeito.
É que a reeleição dá nisso: por mais que se prometa que daqui pra frente tudo vai ser diferente, o segundo mandato é uma espécie de aval para o primeiro e o governante se fia na segunda chance como num cajado mágico. Se o presidente Lula chegar lá de novo, minha gente, é capaz que traga o Zé Dirceu, o Delúbio Soares e, sob a promessa de um cheque em branco novinho em folha, até o Roberto Jefferson de volta. Porque o povo, afinal, avalizou o primeiro mandato. E é sempre bom olhar os adversários de sempre e afirmar: aahá, agora vocês vão ver o que é bom pra tosse...
Ou alguém duvida que, se reeleito, o governador Roberto Requião não irá liberar geral o lado ''aqui quem manda sou eu'' e olhar mais feio ainda para os transgênicos? No fundo, no fundo, o governante reeleito, assim como o marido-galinha, ganha salvo-conduto para dar suas puladas de cerca e voltar pra casa com cara de gato que comeu passarinho. Meio culpado, sim, mas feliz e certo do perdão.
Com Nedson Micheleti é a mesma coisa, só que sob perspectivas diferentes. O londrinense, tal como patroa experiente, rejeitou Antônio Belinati, justamente por conhecê-lo bem e não quis arriscar com o pretendente sempre a postos, o Luiz Carlos Hauly. E optou por dar uma segunda chance ao prefeito de plantão. Não era a melhor das maravilhas como administrador mas, pelo menos, era honesto. E, quem sabe, ele não melhora na segunda tentativa?
Tal como a patroa descobriu que, além de manter o vício antigo, a incapacidade de administrar bem a cidade, o maridão ainda trouxe novos hábitos, como a suspeita do uso de Caixa 2 na campanha, e um novo problema, a viuvez.
Olhando o cenário, entende-se porque ao se pedir paciência com o momento delicado que o prefeito de Londrina passa, 2 meses depois da morte da mulher, a manifestação mais educada foi ''paciência é a mãe''. Exatamente como na segunda tentativa de salvar o casamento, na reeleição a irritação acaba por minar o que resta de compreensão. No popular, vira tudo uma grande baixaria, sem dó nem piedade até que, no final, sem conseguir nem olhar um pra cara do outro, vai cada um pro seu lado. Agora, em definitivo.
Pra quem está de fora só resta lembrar: quem pariu Mateus...





