RUTH BOLOGNESE
O Paranaense está só
Se algum paranaense tinha alguma dúvida, ela recebeu a pá de cal definitiva nestes últimos 20 dias: com um rebanho bovino de 10 milhões de cabeças (quase igual ao número de nascidos aqui) sob a ameaça da febre aftosa, o Estado ficou à mercê de um Governo Federal irresponsável e distante e um Governo Estadual atrapalhado, inseguro, medroso e bobão. Para não dizer de uma vez, sem respeito nenhum pelo patrimônio privado dos produtores paranaenses, conquistado à duras penas, e pela economia do Estado. Acabou-se aquela fantasia ridícula que, quando se tem no Palácio Iguaçu uma turma que joga no mesmo time de Brasília, o Paraná pode ser beneficiado. Pura balela.
Até agora, tanto senadores, deputados federais, estaduais e todo o Governo de Roberto Requião, a começar pelo próprio, foram figurantes de um teatro do absurdo, aceitando fatos, atitudes e determinações geradas pela ameaça da febre aftosa, para não desprezar o trocadilho, como bois mansos. Desde o primeiro gesto de arrogância e desprezo do governador Requião, que mandou de volta R$ 1,5 milhão oferecidos pelo Governo Federal para o Paraná começar a enfrentar o problema, tudo indicava que a velha máxima de que, quando se espera que algo vá dar errado, dá mesmo, estava mais certa do que nunca.
Poucos dias depois do governador ter dado uma de rico e desprezado a verba, veio de Londrina a notícia sobre as suspeitas da febre no rebanho do Paraná. E aí começou o rosário de trapalhadas: os resultados sempre adiados de um laboratório a uma distância continental do pasto, em Belém do Pará, o governo de São Paulo batendo a porta na cara dos nossos produtos, o governo do amigo Lula acenando com migallhas para indenizar produtores e, finalmente, o Ministério da Agricultura isolando uma faixa imensa de 33 municípios como se todos tivessem boi babando aftosa em cada moita de capim.
Enquanto o leite jorrava direto para o chão de Castro, na maior bacia leiteira do Paraná, o governador Requião fazia piadas sobre a febre aftosa, dizendo que ia chamar o irmão lobista do presidente Lula, o famoso Vavá , de São Bernardo do Campo, para obter algum dinheirinho extra e indenizar os produtores. A comitiva de paranaenses, liderada pelo afável vice, Orlando Pessuti, foi para Brasília e se esforçou para, pelo menos, entender a extensão da crise mas, sozinha foi e sozinha voltou. Uma tentativa de reunião com a bancada paranaense na capital contou com uns dois ou três deputados pingados e ficou por isso mesmo.
O senador Osmar Dias, PDT, originário e auto apresentado como a grande liderança agropecuarista do Paraná, refugiou-se em Maringá, ficou longe do celular e nada disse nem lhe foi perguntado. Seu irmão, o senador Álvaro Dias, tão preocupado em denunciar os grandes escândalos brasileiros, não iria trocar, jamais, os salões acarpetados do Congresso Nacional pelo nível rasteiro das cocheiras febris do Paraná. Preferiu a publicidade gratuita e chic do programa do Jô.
Cada um com seus ''pobremas'', parece dizer nossa classe política sobre um dos maiores desastres da história econômica do Paraná. Se fosse para pegar o touro à unha, mesmo, o governador Requião poderia ter ido para Belém do Pará exigir in loco o resultado dos exames do laboratório. Poderia ter ido à Brasília alavancar a comitiva, com sua presença institucional em nome dos produtores paranaenses. Bateria na porta do Palácio dos Bandeirantes e chamaria o seu colega, Alckmin, para uma conversa tête-a-tête entre mandatários de fronteiras vizinhas. Poderia atravessar os portões da Granja do Torto e faria a pergunta simples e direta: ''E aí, Lula, vai valer ou não aquela história da campanha eleitoral, quando havia a questão de pele com o candidato ao governo do Paraná''. Optou-se pela piada, a frase de efeito para a imprensa, a doce companhia do pai em Maringá, o programa do Jô, o descanso do Finados.
E os produtores de leite, os pecuaristas, os que estão com o emprego no bico do corvo? Os que se deparam com a placa de aviso no supermercado ''aqui só se vende carne do Rio Grande do Sul''? Para estes, a solidão de quem não tem com quem contar. E bem numa hora destas.





