Eu tenho medo do Ratinho Jr
  Nos anos 70, bela, no auge da fama e admirada em todo o País, a atriz Dina Sfat dirigiu os olhos escuros para o general Dilermando Monteiro, então comandante do II Exército e, ao invés de fazer as perguntas de praxe num programa de TV, revelou o medo que sentia dos militares, ainda em plena ditadura. Nada mais contraditório do que enfrentar o poder armado escancarando a fragilidade pessoal. Mas Dina revelou, naquele momento, um sentimento comum a todos os brasileiros, que davam os primeiros passos em direção à democracia.
  Quase 30 anos depois, com generais apaziguados nos quartéis, democracia plena, governo de esquerda em Brasília e eis que, ainda assim, o medo pode voltar. E, agora, na forma de um jovem deputado eleito pelo povo, defensor do desarmamento, nascido e criado num Brasil sem censura, afortunado pelo sucesso do pai, celebridade nacional.
  Pois, sem a formosura e muito menos o talento dramático de Dina Sfat e resguardadas todas as devidas proporções, uso este espaço público para confessar: eu tenho medo do Ratinho Jr. E esta conclusão veio 3 anos e meio depois em que comecei a escrever diariamente a coluna de assuntos políticos, primeiro em um jornal de Curitiba e depois nesta Folha. Tal sensação não está relacionada às ações movidas pelo Ratinho pai contra mim na Justiça, pedindo indenizações milionárias que nem mesmo 20 anos de trabalho jornalístico cobririam. É um processo civilizado buscar a reparação isenta, mesmo quando a liberdade de imprensa fica ameaçada. Nem tampouco temo os discursos inflamados do deputado Ratinho Junior (PPS), no plenário da Assembléia Legislativa, movidos pela emoção da crítica recém lida e ainda não digerida. Como diria uma outra celebridade instantânea dos big brothers da vida, tudo isso ‘‘faz parte’’
  O que me assusta no deputado Ratinho Jr são as atitudes de pessoas que com ele convivem, reflexos imediatos de reações que vêm se repetindo sempre que alguma notícia é divulgada na coluna diária. Na semana passada, o relato de uma pergunta feita a ele durante debate na Faculdade de Direito de Curitiba sobre seus seguranças, desencadeou novamente um comportamento que pode ser resumido numa frase do advogado dele: ‘‘Estou exigindo a retratação da notícia para evitar o pior. Estou te ajudando’’, dizia ele. E a notícia sobre os seguranças era verdadeira, testemunhada por mais 200 estudantes que assistiram o debate sobre desarmamento.
  Os políticos em geral, paranaenses em particular, têm dificuldade de aceitarem críticas. Compreende-se. Para qualquer pessoa, eu, você, o deputado ou o presidente da República, a crítica é pior para engolir do que purgante de óleo de rícino. Reações contrariadas são normais. Mas quando um advogado de um deputado fica nervoso e exige a publicação de um Direito de Resposta baseado no argumento de que está fazendo um favor à jornalista, acende-se uma luzinha fraca lá na frente.
  O Ratinho Jr é um deputado esforçado, briga pelo seu espaço na Assembléia Legislativa, quer fazer uma carreira na política do Paraná e tem todas as condições pra isso. Que precisa estudar mais, se aprofundar nas questões paranistas, trilhar um caminho próprio, para se transformar num político pronto e acabado, é inegável. A grande maioria dos seus colegas também precisa. Mas antes de chegar lá, terá que se mirar no exemplo de seus colegas, os recém-chegados, como o deputado Bradock (PMDB), que contra ou a favor, quer mesmo é ver seu nome nas ‘‘Folhas’’ (expressão dele). Ou os mais antigos, como Rafael Greca, PMDB, ou Hermas Brandão, PSDB, que engolem o óleo de rícino em seco e seguem em frente. São sábios.
  Através do medo pode levar uma jornalista, mãe de duas filhas e de um neto de 10 anos, como eu, a pensar duas vezes antes de relatar um fato (real) que, eventualmente, possa depor contra ele. Ou abrir um espaço na coluna que nem é minha, mas dos leitores, para um pedido de resposta que juiz nenhum exigiria. É uma vitória dele? Claro que é. Cala-se uma voz crítica e isto, no jargão político, já é lucro. Mas, como descobriu o general brasileiro que não ousou encarar os olhos negros da Dina Sfat, o medo é a forma mais breve de dominação, de controle. Dina confessou-se temerosa, tornou-se símbolo de liberdade e deixou a imagem de uma mulher, além de bela, corajosa. E do general armado, travestido de poder e prepotência, elementos comuns nos tempos de chumbo, ninguém lembra quem era. Apenas que dava medo.

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