Sobre o terrível
Aceita tudo o que te acontece: o belo e o terrível. É só andar. Nenhum sentimento é estranho demais, diz o poeta e escritor alemão, Rainer Maria Rilke. Há pouco mais de três meses uma notícia que veio da polícia de Curitiba bateu com exatidão na seara onde o fato terrível se depara com a dúvida em comentá-lo, sob o medo de chocar além da conta. E a decisão pelo silêncio, há que se admitir, é sempre mais confortável. Mas, na semana passada, a notícia voltou a insistir e agora, por mais que o terrível assuste, é preciso encará-lo com a escrita.
O casal curitibano, Nilson Moacir Oliveira Cordeiro, 32 anos e Any Paula Fascolin, 29 anos, foi acusado de abuso sexual contra o filho (com uma semana de vida) por laudo do Instituto Médico Legal da Capital. A criança morreu e o casal ficou preso nos últimos três meses, ele em cela isolada para evitar a justiça com as próprias mãos que se pratica nas cadeias em casos dos crimes chamados hediondos.
Agora, um novo laudo, assinado pelo titular de Medicina Legal da Universidade Federal do Paraná, professor Francisco Moraes, e mais dois pediatras da Capital, revelou que o recém nascido portava doença rara nos genitais (Síndrome de Fournier) e pode ter sido vítima de erro em procedimento médico, não de abuso sexual.
Desde o começo, esta história não teve sentido. O terrível no caso, o abuso sexual dos pais para com um bebê de sete dias, praticamente com o umbigo em aberto, ultrapassava qualquer medida do humano. Na história do casal, ele assessor parlamentar do senador Flávio Arns, do PT, soropositivo, estudante de Direito, juntos há dois anos e meio e com outros três filhos de relacionamentos anteriores, a polícia encontrou e.mails pornográficos, detalhados nos depoimentos de ambos. Com estes dados e sem qualquer cuidado em preservar sigilo ou a identidade do casal enquanto as investigações prosseguiam, o laudo do IML foi distribuído para a imprensa, médicos deram entrevistas, revoltados, e vieram as manchetes de sempre, seguidas da prisão.
O tempo mostrou o descaso absoluto da polícia em trazer a público um assunto desta gravidade como se fosse um acidente de trânsito. E um festival de incompetências ficou explícito: médicos despreparados no IML que, mesmo depois do laudo do professor da UFPr continuam mantendo a versão anterior; policiais irresponsáveis; investigações mal feitas; descaso do senador Flávio Arns e por aí vai.
Na sexta-feira familiares estenderam faixas denunciando a situação durante depoimento do casal na 2 Vara Criminal e o Ministério Público já deu parecer favorável para que marido e mulher respondam o processo em liberdade.
O corpo do recém nascido permanece no IML, a espera do julgamento final do caso. E a decisão poderá abrir caminho para um pedido de indenização ao Estado. É do direito deles. Mas nada recupera o trauma de uma acusação inominável, da execração pública, da prisão e suas consequências. E, para o cidadão, fica mais forte ainda a fragilidade de cada brasileiro diante do aparelho estatal, da imprensa, da polícia e até dos mais próximos.
O terrível, a que se referia o poeta alemão Rilke, mesmo sendo do humano, pode não vir sozinho quando se trata de uma grande tragédia. Pode sim, acompanhar o pior momento da vida. E torná-lo mais terrível ainda.

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