RUTH BOLOGNESE
A crítica do eu sozinho
Nós temos um governador que já se escondeu sob um pseudônimo de raça canina, Carlos Schnauzer, e publicou artigos em jornais contra sua própria gestão na Prefeitura de Curitiba para cobrar resultados da equipe de trabalho. Pelo menos foi o que Roberto Requião contou durante visita de cortesia que fez ao sindicato dos donos de jornais do Paraná, na quinta-feira. A história é um espanto e pode ser interpretada sob vários ângulos.
Podemos começar, por exemplo, pela escolha do nome e sua alegoria de quatro patas que, dependendo da qualidade da raça, provoca reações diferentes. Um schnauzer é cãozinho de dentro de casa, mais festivo do que inteligente, dado a abanar docemente o rabo ao menor sinal de agrado. Ao contrário de um pastor-alemão, mais inteligente do que dócil e que, bem treinado, é capaz de impedir a dentadas, qualquer ameaça ao seu território. Muito distante de um pit-bull, dado a estraçalhar a vítima antes e perguntar depois.
Mas, vamos prosseguindo: há uma clara inversão de valores quando um político, ocupando seu primeiro cargo executivo, se dá ao luxo de escrever críticas de próprio punho e mais, publicá-las, deixando documento pronto e acabado para uso futuro de seus adversários sempre atentos.
Outra atitude, até mais surpreendente, é a confissão do uso de um mecanismo tão óbvio (a crítica da imprensa) e, geralmente, mais contestado do que levado em consideração, para cobrar resultados dos próprios membros da equipe de governo. E, finalmente, a declaração de fé cega na independência da mídia, colocando-a como elemento de grande valia na fiscalização dos governos em geral. Uma independência garantida, na opinião do governador, pela eliminação completa das relações comerciais com o poder público.
Para quem se apega ao popular como o caminho mais fácil de entender e simplificar as coisas, temos aí um farto leque de revelações. Mas, mesmo no popular, seria baixar demais o nível da reflexão imaginar que o governador-jornalista comparou os coleguinhas da imprensa a um pequeno e dócil schnauzer. Também não deve ter publicado críticas à própria gestão como prefeito para assinalar a desimportância da mídia em sua bem sucedida carreira política. Assim como, pelo absolutismo com que se comporta no exercício dos cargos que ocupa, EL Supremo não precisaria se apoiar em artigos de imprensa para cobrar resultados da equipe.
Por tudo isso, podemos interpretar a história de Roberto Requião-Carlos Schnauzer pelo último item, este sim, o que não demanda devaneios. É o dito e o feito. Ou seja, na visão de quem ocupou o papel do poder público e sempre se relacionou comercialmente com os donos da mídia, as rédeas ainda estão firmes de quem põe a mão no bolso: a imprensa pode criticar meu governo, sim. Com total independência, sim. Pode fiscalizar, sim. Mas enquanto buscar a sobrevivência nesta freguesia, a crítica terá que ser feita do meu jeito. No popular mesmo, se não sou eu quem me critica, tem que ser igual que eu.
Mais didático e óbvio, impossível.





