Os bichos somos nós


Quando fala para estudantes particularmente revoltados contra a péssima qualidade do Congresso Nacional, o jurista René Dotti, de Curitiba, faz sucesso com uma fábula sobre bichos. Conta o professor René que um dia um ratinho foi surpreendido pela instalação de uma ratoeira em plena sala da casa em que morava. Desesperado e com medo de enfrentar, sozinho, o poder da arma inimiga, procurou seus pares mais próximos e pediu um help. Propôs, primeiro para a galinha que cacarejasse, denunciando o abuso. A galinha, altaneira, respondeu que não tinha nada com isso e calou-se. Procurado, o porco preferiu continuar chafurdando, tranquilo, no chiqueiro. E a vaca, negou-se terminantemente a envolver-se por medo de secar-lhe o leite.
Mas, eis que uma cobra venenosa, distraída e faminta caiu na ratoeira e, antes de morrer, mordeu a dona-da-casa. A família apavorou-se, chamou o médico que, além do soro antiofídico, recomendou descanso absoluto e caldo-de-galinha. Não houve concessão e a galinha foi a primeira vítima. Calada viveu e calada morreu. A chegada de muitos parentes, vizinhos e políticos levou a família a tirar o porco da lama aconchegante e passar-lhe a faca. Ele chiou um pouco, mas rendeu-se às evidências. Como desgraça pouca é bobagem, a dona-da-casa veio a falecer. E, para alimentar a multidão que compareceu ao velório, ninguém menos que a vaca leiteira teve que ir pro beleleu, com leite e tudo.
O professor René, único paranaense que faz parte do grupo dos maiores ''bam, bam bans'' do Direito brasileiro, conta a fábula para mostrar aos estudantes que, se as leis são ruins no País, a responsabilidade cabe a cada brasileiro. Somos todos nós, afinal, que elegemos os 500 e poucos nomes do Congresso Nacional. O jornalista Francklin Martins, comentarista político da Rede Globo, também conta história na mesma linha: em viagem a Porto Seguro, na Bahia, em companhia do filho, Francklin foi reconhecido e surpreendido por um paulistano que lhe perguntou, sem mais nem menos, ''como era a vida entre aqueles ladrões de Brasília''. E ele respondeu, na bucha: ''e quem mandou os ladrões para Brasília foi você, com seu voto''.
Para traduzir situações como estas, a vó Maria era mais direta e reta e dizia que ''passarinho que come pedra, sabe o que lhe advém''. O ex-governador José Richa, mais intelectualizado, tinha sempre por perto o conhecidíssimo texto de Brecht sobre o cidadão que não gostava de política.
René Dotti conta que sua fábula dos bichos indiferentes diante da tragédia do ratinho leva os estudantes de Direito a reações sempre positivas. Uma turma chegou a montar um desenho relacionando os bichos com a crise política brasileira. Ele acredita que, ao levar cada aluno a pensar sobre sua própria responsabilidade na hora de votar, estará contribuindo para que o Paraná ajude a melhorar a qualidade do Congresso Nacional e, consequentemente, a melhorar o Brasil.
René Dotti planta hoje pra colher amanhã, para que eleitores não venham a ser devorados pela própria ignorância na hora de mandar uns quatro gatos pingados para Brasília. E atenção: é bom lembrar que o único bicho que saiu, são e salvo da história foi o ratinho, mesmo diante da indiferença da maioria. E não por esperteza ou acuidade política, mas porque não tinha valor nenhum diante das dificuldades da família. Ou seja, sem visão de conjunto, nem os ratinhos se salvam.

mockup