RUTH BOLOGNESE
SENTADO À BEIRA DO CAMINHO
O ex-governador Jaime Canet Junior ainda figura no pequeno e exclusivo grupo de governantes sempre citados como exemplo de austeridade. Lembra-se, também, como ícone daquele período (meados da década de 70) a construção de 4 mil quilômetros de estradas dentro das fronteiras do Paraná. Para quem só tem referência em termos de ocupantes do Palácio Iguaçu de um Jaime com sobrenome Lerner, lá vai: Canet era um próspero fazendeiro de Bela Vista do Paraíso, dedicado ao ramo da construção civil e de hotéis, que morava (e mora até hoje) numa casa-clube bem situada na avenida Visconde Guarapuava, em Curitiba. Casa-clube porque, certa vez, um capiau que veio trabalhar no Governo Richa, na leva de Pés-Vermelhos que invadiram Curitiba naquela época e por aqui ficaram, se reproduziram, etc, ao procurar, junto com a patroa, um apartamento para morar, ouviu dela a admirada expressão: ''Vamos ficar com este apartamento, sim, benzinho. Olha lá que clube maravilhoso e imenso, olha as piscinas, as quadras de vôlei. As crianças vão adorar! Veja, tem até horta''. Era a casa de Canet que ela via de cima.
Então, este foi o governador que o governo militar de Ernesto Geisel indicou para o Paraná, por via indireta, que era a forma de escolha na época. De descendência espanhola, rico, teimoso e temido, o perfil voltado à direita de Canet conviveu bem com os anos de chumbo e teve seu retorno em termos de recursos e repasses federais. Mas, seu maior feito, relembrado até hoje, foi um reflexo direto da sua condição de produtor rural do interior do Paraná. Canet sabia, por convivência, que a necessidade básica daquele momento da história do mais jovem Estado do Sul, ainda em desbravamento, era garantir às milhares de famílias que se espalhavam nas regiões mais férteis, o direito de ir e vir. Nada pior do que ficar de um lado da estrada de lama lisa e perigosa, com uma criança doente ou um caminhão de milho, esperando o sol chegar. Na pressa de liberar o caminho entre o carreador do sítio e a cidade, Canet optou por uma camada de asfalto meia-boca, mais fino, que seu adversário político de então, o ex-governador Paulo Pimentel, apelidou de ''casca-de-ovo''. Bom apelido, mas que o tempo acabou desmentindo. Muitas ''cascas-de-ovo'' estão aí até hoje.
Nestes 30 anos que separam o governo Canet dos dias atuais, um Anel de Integração e muitos pedágios depois, quem vem do interior do Paraná, ou mesmo do litoral, tem explicação na ponta da língua sobre os bons índices apresentados pelas pesquisas na avaliação do Governo Requião. ''São as estradas. Requião recuperou tudo, parece um espelho''. Bom para Requião, que não pretende mudar de endereço nos próximos 5 anos. Garantia de permanência para seu feudo político-familiar.
E para o Paraná? Longe de jogar na mesa a ultrapassada cobrança, do ''projeto de Governo, onde está o projeto de Governo?'', subterfúgio da imprensa que se esconde atrás da pseudo-crítica aos governantes ou de políticos em busca do tal ''aprofundamento das questões paranistas'', existe aqui um elo comum entre dois governos no espaço de uma geração, como se 30 anos fossem ontem. O Paraná ainda apóia e se contenta com o jargão de que ''governar é construir estradas'', mote de um presidente brasileiro que remonta aos livros de história, Washington Luiz.
Para um Estado onde cooperativas já colocam no mercado resultado de pesquisa própria, leite condensado de soja (alemães e japoneses estão loucos para exportar a iguaria...), a questão das estradas deveria estar mais resolvida do que mulher bem casada. Mas o contraste entre o Paraná privado, evoluído, pronto para decolar no mercado interno e externo, e aquele oficial, que ainda se apóia, exatamente como há 30 anos, na manutenção de estradas, como anteparo de bons índices de pesquisas, aí está.
Estamos sentados à beira do caminho e as razões vão desde a falta imemorial de recursos para infra-estrutura básica (problema do Governo Federal), passam pela pequenez da nossa influência nos gabinetes de Brasília e se prolongam em governos locais. Estes, ora levados pela premência em resolver problemas crônicos (estradas ruins, por exemplo), ou pela incompetência mesmo, vem e vão e nunca se detém no foco daquilo que realmente interessa ao Estado e seu futuro. Para Jaime Canet, que divide hoje seus 80 bem vividos anos entre os belos cafezais da fazenda de Bela Vista do Paraíso e a casa-clube de Curitiba, continuar atual, 30 anos depois, é muito bom. Para o Paraná, apoiar um governo porque tapa buracos, é de lascar.





