RUTH BOLOGNESE
Não dê a mão para deputado
O Chico Buarque está triste por causa do PT. A mais famosa filósofa do Brasil, Marilena Chauí, primeira personagem da claque de belas intelectuais de esquerda que se curvaram diante do operário Lula, rude e barbudo, na década de 70, está calada. A velhinha de Tabauté, personagem de Luiz Fernando Veríssimo que desde o governo militar de João Figueiredo acreditava em tudo, foi assassinada pelo autor.
É o silêncio generalizado de quem ficou no mato sem cachorro em termos de referência política no Brasil. Neste momento, além da mamãe e da tia Cida, mulheres da roça aposentadas que ainda têm vergonha de entrar nos iluminados shoppings de Maringá, não dá pra por a mão no fogo por ninguém.
E enquanto o povo anda mais atarantado do que cachorro que caiu de mudança, começa a ganhar corpo em Brasília um grande acordo político: perdoar a ignorância completa de Lula (a gente pensava que era só gramatical), em nome da estabilidade econômica, cassar uns 20 deputados e dar o dito pelo não dito. Eis o presidente de esquerda recebendo a bóia de salvação das elites a quem já acusou, publicamente, de tentar derrubá-lo.
Mas é bom pra gente aprender, de uma vez por todas. Político é como rico. Por mais fuleiro que seja, sente-se merecedor de todas as regalias pelo simples fato de acordar todos os dias. Pode ganhar bem, comer bem e roubar bem: ''Se nasci ou fiquei rico, mereço'', no primeiro caso. ''Se fui eleito, posso tudo'', no segundo caso. Querem exemplos? O deputado federal Waldemar Costa Neto, afundado num mar de lama do PL, nem bem renunciou e já pediu aposentadoria na Câmara. Sem a menor vergonha na cara. José Janene, de Londrina, apontado por meio mundo como um dos articuladores do mensalão do PP, ''opera'' 24 horas por dia e ameaça Deus e o mundo para não ser cassado. Em qualquer dessas situações, qualquer caboclo, com um mínimo de autocrítica, estaria internado nos cafundós do Judas, disfarçado de Mazzaroppi para não ser reconhecido nem pela sogra.
Falta decência aos políticos, ressalvando (poucas) exceções. Nosso papel, como eleitores, é deixar claro o desagrado. Em 1968, o deputado carioca, Márcio Moreira Alves, com um simples gesto de rejeição social, despertou tanto ódio que levou os militares a editar o AI-5. Pediu às moças brasileiras que não dançassem com os cadetes no Baile de Sete de Setembro, como protesto contra a ditadura.
Agora, você também pode reagir na mesma linha de Moreira Alves: não atenda mais as ligações de nenhum deputado, cancele os e-mails, desligue a TV Senado, não leia as notícias sobre a Câmara Federal nem tome conhecimento dos acordos brasilienses. E se encontrar um deputado na rua, vire para o outro lado, não lhe estenda a mão, recuse o cumprimento.
Aí, sim, políticos que se comportam como rainhas da cocada preta em plena era dos escândalos vão ver o que é bom pra tosse. Ou o que é ruim para as eleições de 2006.
Ao ignorarmos todos eles, pelo menos um resultado poderá aparecer: desprezados, eles irão buscar ocupação para não deprimir e quem sabe? não se debrucem sobre os documentos das CPIs e descubram, finalmente, quem deu dinheiro para o Marcos Valério?





