RUTH BOLOGNESE
O Paraná está pronto?
No começo da década de 80, a revista ''Veja'' publicou 3 páginas de reportagem sob o título ''O Paraná ficou pronto''. O autor, jornalista Hélio Teixeira, percorreu o Estado de Norte a Sul e relatou uma agricultura avançada em tecnologia, safras produtivas, estradas boas por todo lado e cidades bem estruturadas. Éramos, então, cerca de 9 milhões de habitantes vivendo num quase berço esplêndido. Um cartunista mais irônico, inspirado na nova realidade antecipada pela revista, chegou a desenhar um paranaense de smoking carpindo roça.
Vários governos e uma década e meia depois, a própria realidade leva à certeza de que nem o Paraná estava pronto, como recuou em muitas áreas. Crescemos em PIB, ou seja, ficamos mais ricos, geramos mais energia, produzimos grandes safras e melhoramos a educação. Mas perdemos em malha viária, saúde e segurança. Pode-se argumentar que o aumento da demanda (positiva) corroeu, automaticamente, a infra-estrutura existente (hoje negativa).
Mas nada é mais didático para demonstrar o descompasso entre o Estado aparentemente bem de vida e os benefícios decorrentes do que o enfoque do atual governo: a despeito da riqueza gerada nos últimos 15, 20 anos, milhares de famílias paranaenses ainda dependam de luz mais barata e do leite distribuído de graça para melhorar as condições de vida.
A vergonha do leite
Existe uma inversão absoluta de valores quando o governo de um Estado que reúne, em suas fronteiras, potenciais indiscutíveis de desenvolvimento, coloca a distribuição do litro de leite como ponto forte do seu programa. Não é. É vergonhoso. E aí reside o grande equívoco: o papel de um governante é o de planejar e executar políticas de avanço econômico e criação de empregos justamente para evitar a esmola, a não ser em casos e condições excepcionais, quando se torna um dever de Estado. E, longe de servir como alavanca política, a esmola deveria ser tratada como um vexame, prova do fracasso mais elementar num Paraná que jorra riqueza em forma de alimento. Ou alguém acha que receber litro de leite do governo é motivo de orgulho para quem recebe?
Vamos ser claros: recuperar estradas, distribuir litro de leite, baixar a conta da luz para os mais pobres, construir escolas e hospitais, ser honesto, é cumprir tabela, não governar. Ney Braga governou quando, ainda lá no primeiro governo, implantou as bases do Paraná moderno, unindo Norte e Sul, e abrindo fontes de financiamentos estratégicos para a infra-estrutura do Estado. Jaime Lerner governou quando planejou a industrialização automotiva. E, pode-se discordar do conteúdo, já que Lerner virou as costas para a agricultura num Paraná equipado para o agronegócio, mas não da iniciativa.
O governador Requião toca o dia-a-dia. Satisfaz uma região aqui com recuperação de uma estrada, agrada outra acolá com um hospital, chama lideranças da polícia para um chá em casa e promete aumentos ou reduz uma alíquota de imposto para impulsionar o pequeno comércio. E assim, tapando buracos, vai preparando seu caminho para a reeleição. Quando ensaiou governar, proibindo transgênicos, o fez de maneira absolutista e transformou um tema de importância extrema para o Paraná do futuro numa teimosia rasteira e pessoal. Há seis meses ruiu a ponte Capivari-Cachoeira, na BR-116, nossa única ligação rodoviária com os mercados consumidores de São Paulo pra cima e o aliado do Lula permanece calado. Nem vamos entrar em detalhes aqui, para não cansar o leitor com batidas na mesma tecla, da gestão do primeiro exportador de grãos do País, o Porto de Paranaguá.
No fundo, no fundo, os governantes que vêm se sucedendo no Palácio Iguaçu, com raríssimas exceções, estiveram, e estão, aquém dos desafios que o Estado impõe. Muitos deles podem até continuar ganhando eleições. Mas, será sempre sobre o leite distribuído, sinal inequívoco de que o Paraná ainda não está pronto. Nem para votar, e consequentemente, nem para ser governado com visão de futuro e eficiência.





