Por que Londrina assusta
  Os londrinenses não são melhores do que os outros, não. Comem e dormem como todo mundo. Nem são mais ricos ou mais importantes que a região de Maringá, ó, que com aquela história de catedral pra cima e do prefeito Silvio Barros II, até dinastia tem. O que sempre despertou uma certa inveja (e um certo temor, também) foi a politização dos londrinenses, com uma queda para a esquerda progressista, um ‘‘nem a풒 para o sotaque cosmopolita de Curitiba e as teses lerneristas ou requianistas da vida. Pois foi Londrina a primeira grande cidade do Sul do País a colocar o PT na prefeitura e a primeira a mandar embora um prefeito envolvido em corrupção. Assim, na lata.
  Por tudo isso, a notícia do Caixa 2 na campanha petista pela reeleição, há dois anos e meio, cai como um susto. E, tem mais, quando se lembra que por ali se juntou o PT mais avançado do Paraná, com Flávio Arns, Paulo Bernardo, Gilberto Carvalho e cia. e ali se firmou a ‘‘Folha de Londrina’’, um jornal onde se pode respirar um mínimo de independência contra toda uma imprensa paranaense mansa e cordata. A primeira pergunta que surge é inevitável: ‘‘mas onde estavam os Pés Vermelhos – Mãos Limpas que não perceberam nada disso?’’. A segunda já trás embutida a acusação : ‘‘se até em Londrina o PT aprontou, imagine, então, nas outras cidades?’’. E a terceira é uma pequena vingança, carregada de ironia: ‘‘uai, então, quando se trata do PT, até para os Pés Vermelhos tudo é permitido?’’
  No fundo, no fundo, a cobrança que se faz a Londrina é mais por seus acertos do que pelos defeitos. Ali, diante de todo aquele pessoal que foi às ruas mandar Belinati para o exílio dourado da chácara, não tinha mais lugar para pacotes de dinheiro sem origem, suspeitas de compra de votos, Ministério Público e Polícia Federal na cola de assessoras indiscretas e vingativas, e prefeito negando o óbvio. É filme já passado e ultrapassado.
  Não se permite aos londrinenses baixar a guarda desse jeito, deixar rolar, como se ética fosse patrimônio ad eternum de quem lavou as calçadas da cidade em simbólica limpeza da corrupção. Assim como, de uma maneira mais abrangente (e tão constrangedora quanto), é de se perguntar à imprensa brasileira hoje como o PT movimentou milhões e milhões, distribuiu benesses a partidos do calibre de um PTB e de um PL, contratou o marketólogo mais notório do Brasil para tornar palatável o sapo barbudo e nenhum jornalista, nenhum repórter, se deu conta disso. Sequer se perguntou de onde vinha o dinheiro.
  Londrina assusta porque se ali, na frente de tanta gente preparada, esperta, disposta a disparar sem dó contra o ilegal e o imoral, aconteceu o mais primário Caixa 2, o que será do resto? Ou pior, aonde chegará a impunidade num Paraná muito menos exigente com suas lideranças, apolitizado e desinteressado pela administração pública?
  É por isso que se cobra tanto a cegueira de Londrina. Por causa de nossos próprios medos e inseguranças. Não é filosofia, ou psicologia, barata, não. Estamos todos tocando a mesma música e, quando a turma da frente erra o compasso, a gente sabe que a orquestra inteira vai desafinar.
  Para complicar: no depoimento da assessora Soraya Garcia à Polícia Federal está declarado que após a vinda de Zé Dirceu, então ministro da Casa Civil, para Londrina, em 18 de setembro, apareceu um pacote de R$ 200 mil reais com identificação do Banco do Brasil, em notas de R$ 100,00.
  E está tudo ligado: a empresa Visatec-José Janene-Gilberto Carvalho-Paulo Bernardo-Caixa 2-PT-de-Londrina.

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