Tão longe, tão perto
  Tem a história de uma pequena cidade do Interior de São Paulo, quase uma aldeia, que se encheu de orgulho quando dois jovens, nascidos e criados lá, vestiram a farda dos pracinhas e foram lutar contra os nazistas na Itália. Privilégio que destacou as famílias, honrou os vizinhos e emocionou mães e avós. A cada notícia da guerra a cidade se reunia para comemorar os avanços da FEB e a vitória dos aliados foi comemorada na praça principal. Agora só faltava preparar a festa e correr para o abraço no retorno dos dois. No dia marcado para a chegada, prefeito, padre, filhas-de-maria, banda de música, crianças da escola e as famílias se reuniram na estação, todo mundo feliz, de bandeirinhas na mão. O trem chega, todo mundo naquele silêncio de expectativa e um deles desce a escada da estação. Olhos de alegria e gritos, primeiros acenos. Ninguém arreda o pé dali à espera do segundo soldado para dar início ao desfile no carro aberto do prefeito. Mas ele não vem e o companheiro de batalhas mostra a medalha, conquistada na luta contra os nazistas, onde o amigo tombara, morto. A pequena multidão emudece, a banda pára de tocar, as filhas-de-maria rezam e a família chora. De repente, e finalmente, a guerra havia chegado na cidade.
  Dois episódios desta semana reprisam de perto a história dos soldadinhos paulistas: o brasileiro morto como terrorista em Londres e as denúncias de caixa 2 do PT em Londrina. Até aquele caixão de feitio inglês, quase igual ao do Papa, chegar nas ruas sem asfalto de Gonzaga, interior mineiro, o terrorismo internacional só era visto pela TV no Brasil. O seqüestro do engenheiro da Mendes Junior, também de Minas, no Iraque, ainda choca os brasileiros mas, por ser insolúvel, não produziu a imagem definitiva. O retorno do Jean Charles, nome premonitório de quem poderia chegar a Londres um dia, com 8 tiros na nuca, dado pela Scotland Yard, este sim, trouxe o terrorismo internacional para as Gerais, grotão mineiro de Guimarães Rosa, onde até então só diabo fazia redemoinho no meio da rua.
  Da mesma forma, mas em outra proporção e em outra seara, a sexta-feira trouxe as manchetes dos R$ 6,5 milhões que o PT jogou na campanha de Nedson Micheleti, em Londrina, onde os ‘‘Pés Vermelhos – Mãos Limpas’’ deram os primeiros passos, há quase 10 anos, no combate à corrupção política. Foi um exemplo para outras cidades brasileiras, onde prefeitos tombaram como moscas sob o efeito demolidor da ética petista. Mas, agora se vê, para tão intensa luta contra a imoralidade, tão pouco o tempo de integridade.
  O terrorismo é aqui também, a corrupção não se deixou afugentar nem por pés vermelhos, nem por mãos limpas. Nestas terras frias do Sul do Brasil o sentimento é o mesmo da pequena cidade paulista ao dar de cara com o horror da guerra: ninguém, por mais distante, no caso do terrorismo internacional, ou mais atento, no caso da fase moralizadora da sociedade civil de Londrina, está a salvo. Nem da guerra, nem do terrorismo e muito menos da corrupção.

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