RUTH BOLOGNESE
A professora de yoga e a política
A professora de yoga, Irene, é alta, loira, bonita e com a mais absoluta leveza coloca o pé esquerdo atrás da orelha direita. Ouve mantras, gênero de música que parece entoada por anjos com harpas. E há muito tempo não assiste TV nem lê jornal, o que lhe garante o equilíbrio necessário para se sentir confortável, por longo tempo, na posição da árvore, algo como um saci-pererê de mãos pra cima.
Mas o barulho dos escândalos em Brasília foi tão alto que até a Irene fez um inesperado comentário na última aula: ''Parece'', disse ela, ''que ficou tudo diferente na nossa política''. Sábia Irene. Há dois meses que não se tem sossego mais na política brasileira e, a cada dia, surge uma nova qualidade de susto. Tanto assim que o ''ooooooh!'' inicial, diante do primeiro escândalo, já começa a se transformar num ''uuaaaaaah'' de enfado diante da última quebra de sigilo bancário.
O que se tem certeza, hoje, é que a Irene, desinformada por opção, acertou no mantra, quer dizer, na mosca. Mudou tudo mesmo. E, se mudou lá, em Brasília, muda cá, no Paraná, também? Parece óbvio e é. Eis que o senador Álvaro Dias, PSDB, pegou o touro à unha na crise e ficou mais forte ainda para se reeleger senador, vaga que todo mundo (ou os adeptos do irmão, Osmar Dias) quer lhe empurrar. Eis que Osmar Dias parece ter feito voto de silêncio obsequioso nas CPIs, o que começa a abalar a imagem de candidato imbatível ao Governo do Paraná. E eis que o governador Roberto Requião já nem lembra mais daquela questão de pele que o unia ao presidente Lula e começa a sair de banda para não ser notado. Ou, e que me perdoem a expressão indelicada, como diria o Tio Lécio, lá de Floraí, ''embosteou tudo''.
Se Álvaro Dias continuar serelepe assim, quem é que o convence a se contentar com o Senado e esquecer o Governo? O Osmar Dias, calado como está, vai ter assunto com os eleitores em 2006? E nosso EL Supremo, sem Lula e sem a aguerrida galera do PT , continua cacifado para pedir o terceiro mandato aos paranaenses?
Nomes com influência na seara de Londrina e Maringá, como José Janene e José Borba, líderes do PP e PMDB, estão em silêncio meditativo, exercício da yoga conhecido como ''Posição do Morto''. E a depender dos fatos que ainda virão, nomes como o do deputado Osmar Serraglio, PMDB, relator da CPI dos Correios, e de Gustavo Fruet, integrante ativo da Comissão de Ética na Câmara, passam a aparecer em letras maiores na sucessão estadual. Outros poderão vir.
Como vêem, a professora Irene, que entende mais de mantras e equilíbrio do corpo do que da verdadeira pororoca que se abateu sobre Brasília, pode ter mais clareza do que quem conhece até a marca da cueca que escondia os dólares do PT. Mudou tudo e, ao invés de arriscar qualquer cenário futuro, o melhor mesmo é juntar as mãos e fazer a saudação da yoga: ''nemastê'', que quer dizer: o Deus em mim saúda o Deus em você. Ou entoar o mantra um: Oooooooooohummmmmm!





