RUTH BOLOGNESE
PT com insulfilme
O primeiro clic foi no enterro do deputado José Carlos Martinez, maior líder do PTB da era Collor nas paisagens sulistas. O presidente Lula, em pessoa, veio prantear o corpo no Palácio Iguaçu e deixou no ar uma sensação meio esquisita, desconfortável até. Não que a família de Martinez, traumatizada pelo acidente e morte, não merecesse tal consideração. Não era isso. Por ser um deputado federal, ele tinha direito, constitucionalmente, às honras protocolares.
O governo em peso poderia (e deveria) ter vindo, mas a presença de Lula, do próprio presidente da República, em Curitiba, chorando a morte de Martinez, tinha um quê de além da conta. Estava ali o maior e mais próximo integrante do corrupto governo Collor de Mello no Paraná, mais ainda, o sócio de PC Farias no grande projeto de comunicação nacional que acabou no impeachment. E estava ali o homem que tinha acabado de presentear o ministro mais forte do novo governo com um Rolex falso. Mas, porque o momento era de luto, calar era o mais adequado.
Hoje, quando Lula abraça o sucessor de Martinez, o homem dos R$ 400 mil/mês, Roberto Jefferson, em praça pública, alegar surpresa é prova de cegueira. Desde o início do governo, o PT tem feito um trabalho monumental e competente para acabar com qualquer resquício de credibilidade que a classe política ainda tinha diante da sociedade brasileira. Não se fala aqui dos escândalos, diante dos quais nem o mais honesto dos governos pode colocar a mão no fogo. Fala-se de sinais emblemáticos, como o de Lula, representante da nação brasileira, pranteando um deputado-membro de tudo o que se condena na política.
E de lá pra cá, convidando, seduzindo, congraçando, não ''contra'' como dizia ser, mas ''com'' tudo isso que está aí na política. Fala-se aqui do comportamento do governo do PT nos pós-escândalos, principalmente na cara deslavada com que se empenha para dinamitar a CPI dos Correios, nos dias de hoje. Entre um e outro episódio, chegou-se a um nível de descrédito tal que cada brasileiro pode fazer o teste: experimente você mesmo, na mesa de domingo, no bar, na sauna gay, no posto de gasolina ou na gafieira, vá lá, tente defender um político, qualquer um deles. Se sair ileso, será sorte.
Uma pesquisa nacional do Ibope, divulgada no final de maio, revelou que 87% dos brasileiros não acreditam nos políticos. Os outros 12% devem ganhar algum, ser parente ou ''chegado'', daí a resposta positiva. Com tal índice de credibilidade, o pior de todos os tempos, é de se espantar como os políticos, e particularmente o PT, que colocou a ética no balcão e vendeu mais do que pão quente, conseguem andar pelas ruas das cidades brasileiras. Sabem como? Só dentro de carro com insulfilme, daqueles bem escuros.





