A fissura revelada


Generoso, solidário, revolto, poluído, cheio de energia, desvalorizado, usado e maravilhoso na sua foz, o rio Iguaçu nasce em Curitiba e cruza o Paraná no rumo do Oeste. Suas águas movem dezenas de turbinas em hidrelétricas que são a garantia do sistema elétrico do Sul do País. Mas não se sabe porque cargas d'água, (para não desprezar o trocadilho) nesta semana que passou, levantou-se a tese de que a barragem da Hidrelétrica de Salto Caxias, na região Oeste, fonte de energia para até 4 milhões de pessoas, tem uma fissura, uma rachadura de 5 milímetros. E, como num filme de Hollywood, falou-se que a barragem poderia se romper e atingir as cidades à sua jusante. Algo como um tsunami debaixo dos pinheirais.
A notícia, por alarmante, provocou mais um cisma na tumultuada relação Brasil/Argentina porque o rio Iguaçu desemboca no Rio Paraná, e o esvaziamento do reservatório poderia elevar as águas do Paraná e atingir toda a região ribeirinha do Estado vizinho. O Itamarati pediu informações.
Foi preciso que o professor Nelson de Souza Pinto, o mais respeitado mestre em hidrologia do País, ex-presidente da Associação Brasileira de Hidrologia e Recursos Hídricos, autoridade reconhecida mundialmente e responsável por modelos como o de Itaipu, viesse a público garantir que : 1) a fissura existe há cinco anos; 2) já foi divulgada pela imprensa antes e 3) não representa qualquer perigo para a população. Outros engenheiros do setor também se manifestaram, concordando com o professor Nelson.

As razões políticas

Quem construiu Salto Caxias foi a empresa DM Construtora, do empreiteiro Darci Fantin, o único que apresentou proposta em dólar à época, enquanto as outras concorrentes recorreram à moeda nacional. Isso teria facilitado algumas correções no contrato. E também atuou na construção de Segredo, outra Usina da Copel, no rio Iguaçu, pivô da briga entre Álvaro Dias e Cecílio Rego Almeida, detonado da obra dessa hidrelétrica. Atualmente, Fantin é ligado ao PSDB, mas como todo grande empreiteiro no Brasil, nunca põe todos os ovos numa cesta só. Já colaborou com o PMDB em várias campanhas.
Só que Cecílio Rego Almeida, que acabou de ganhar uma obra de R$30 milhões no Porto de Paranaguá, é muito mais amigo do PMDB. Eis aí uma razão política para lançar dúvidas sobre a capacidade técnica da DM Construtora, e esvaziar uma das principais fontes de recursos da campanha do PSDB no Paraná em 2006. Outros motivos podem existir, como desgastar ainda mais Jaime Lerner. Ou até mesmo numa visão psico-patológica, o de minar o atual corpo técnico da Copel, empresa que foi modelo, sofreu nas mãos de Lerner e continua a sofrer. Ou, simplesmente, chamar a atenção para um fato, para esconder outro, de maior gravidade.
Em política, sempre existe um interesse imediato e outro, mais de longo prazo, quando se trata de mídia e comunicação. A nós, eleitores, cabe observar bem e não aceitar verdades absolutas. Ou meias fissuras. O velho mestre Guimarães Rosa, hábil em definições, tem duas frases memoráveis para descrever situações como essa: ''Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa'' ou ''Passarinho que se debruça - o vôo já está pronto!''

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