Cartas Paranaenses (VII)

Querida Maristela,

Esta é uma carta de mulher pra mulher. Penso que o fato de termos o mesmo nome (só que o meu é com Y), me permite uma certa familiaridade no tratamento e total sinceridade no assunto que passo a tratar. Peço, também, a gentileza de não mostrar o conteúdo desta carta ao seu marido, e explico: os homens não gostam que a gente se intrometa nos assuntos deles, se sentem rebaixados. Se for em público ainda, não perdoam. E marido rebaixado é pior que Cascavel (a cobra, não a cidade) na quiçaça: a gente só vai perceber a picada depois que ela sai tocando o sininho. No seu caso, só seria depois da falação do povo ou de sair no jornal. Então, como uma mulher sábia é mais valiosa do que uma exposição inteira do Rembrandt no Museu Niemayer, vamos manter tudo isso só entre nós duas.

O motivo desta, Maristela, é uma preocupação minha, e também de meus familiares, amigas e até dos vizinhos daqui, que votaram em peso no seu marido desde a primeira eleição até agora. Um dos meus vizinhos, militar aposentado, é o mais inconformado e foi até ele que teve a idéia da carta. Pois estava junto com o jovem recruta Requião que pintou um cavalo inteirinho de cor de rosa no CPOR de Curitiba, para fustigar um capitão. O meu vizinho não participou da façanha mas a partir daquele dia, jurou consigo mesmo que, se o jovem recruta fosse para a política, teria o voto dele para o resto da vida. Era lógico o raciocínio: se um soldado raso foi capaz de tamanha ousadia com a autoridade do quartel, imagine o que não faria um político com apoio das urnas?

Assim como o vizinho, começamos a votar muito cedo no seu marido e não paramos mais. Nunca nos decepcionamos, Maristela. Como prefeito de Curitiba, por exemplo, ele não conseguiu baixar a tarifa, conforme prometera, mas teve a coragem de mandar escrever nos ônibus ''Propriedade do Povo'' e cunhou as fichas do vale transporte com seu próprio nome. Não foi bonito, isso? Acredita que até hoje tenho uma ficha daquelas, de lembrança?

No primeiro Governo, talvez até em homenagem aos bons tempos do CPOR, ele chamou o Exército para construir a Ferroeste, estrada de ferro pra transportar soja. O meu vizinho, o militar aposentado, até suspira de emoção quando fala nisso e nunca ligou para o fato de que ninguém sabe, até hoje, quanto custou a Ferroeste, de verdade. Para ele foi simbólico e pronto. Típico de ex-militar.

Outra façanha de que me lembro foi o ''Disque-Quércia'', lembra? Que coragem, meu Deus do Céu! Instalar no Palácio Iguaçu um telefone para denúncias de corrupção contra o colega governador de São Paulo foi demais!

E no Senado, então? Até me arrepia. Lembra quando Requião, com aquele terno elegante, toda aquela postura, lá da Tribuna da Casa Alta chamou, assim, na lata, o então ministro dos Esportes de FHC, Rafael Greca, de ''chefe da máfia dos bingos''? Nem Nossa Senhora Aparecida protegeu o Greca.

Sei que estou escrevendo demais mas é para reforçar o que eu pretendo dizer a seguir. Foi por tudo isso e por outras atitudes, até mais corajosas, que nós daqui da região nem pensamos duas vezes para votar em Roberto Requião para ser Governador de novo no Paraná. Depois de 8 anos de Jaime Lerner, um homem que toda que vez que precisava tomar uma decisão viajava para Paris, depois voltava e não decidia nada, era preciso mesmo um Roberto Requião para colocar os pingos nos is. Durante a última campanha ele já demonstrou a que vinha. Apontava o dedo firme para os homens do pedágio e proclamava, qual Dom Pedro à beira do Ipiranga: ''Ou abaixa ou acaba!''. Mirava o governo de Lerner e decretava: ''Corrupção e nepotismo nunca mais!''. Olhava para os contratos das montadoras de automóveis e franzia a testa como se dissesse: ''deixa estar, Jacaré...''. Estava tudo dentro dos conformes.

Mas agora, quando já se vão 2 anos e quatro meses de Governo, é que eu e meus vizinhos e amigos levantamos a suspeita que passo a narrar. Olhe o panorama e veja se não temos razão. Primeiro, o ''chefe da máfia dos bingos'', o Greca, virou companheiro de primeira hora. Depois Quércia foi recebido no Palácio Iguaçu de braços abertos. Os homens do pedágio dançam ao som das maquininhas de cobrança e já não se sabe nem quantos Requiões tem no Governo. Ressalve-se aqui, duas situações: a senhora não é Requião de família mas por casamento e seu trabalho no Museu é 10. E o Maurício, que é do ramo, na Educação.

Nota de redação: a conclusão da carta de Marystela Assunção, de Mandaguaçu, continua no próximo domingo.

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