O último dos mais próximos


Rompeu-se, nesta semana, o último elo da vida política do governador Roberto Requião. Com decibéis acima do permitido no protocolo, a troca de desaforos entre ele e seu assessor mais próximo, o jornalista Benedito Pires Trindade, derrubou a máxima que circula nos corredores do poder paranaense há, por pelo menos, duas décadas: só o Benedito convive (bem) com Requião. Desta vez, Benedito saiu da sala demissionário. Se a situação for revertida, ainda assim, estratificou-se a imagem do cristal irremediavelmente trincado que marca desavenças de grandes parceiros. É a pura verdade. Ninguém, de secretárias a correligionários, passando pelos próprios irmãos e até pelos que se movem pelos interesses de sempre, permaneceu tão próximo do Governador, por tanto tempo, como Benedito Pires.

Muitos pontos em comum uniram o político e seu assessor ao longo de tanto tempo. Em princípio, a identidade ideológica de ambos, voltada para a correção das desigualdades. No político, como condição para alcançar o poder e no jornalista, como crença pessoal. Depois, e mais fortemente, o comportamento sanguíneo, intempestivo, quase sempre imprevisível, tanto de um lado como de outro. E o que seria razão de desavenças permanentes, tornou-se união amigável, por compreensão mútua. Permeando tudo isso, a reconhecida capacidade de Benedito Pires em verbalizar, transformar em discursos densos e documentos fundamentados, as idéias de Roberto Requião, até mesmo as mais discutíveis.

Um fator pessoal, a história de vida do assessor, protegeu-o dos rompantes irritadiços do Governador que, se não perdoa a quem chama de incompetente (todo mundo que gravita em torno dele), se aquieta diante de dramas pessoais dos mais próximos. Benedito é o único sobrevivente de uma tragédia familiar rara, até mesmo na história da humanidade. A mulher dele, Vera, matou o próprio filho de 19 anos, André, que convalescia num hospital, e um ano depois, suicidou-se. Foi no primeiro Governo Requião. A brutal experiência, que Benedito resguarda de toda e qualquer curiosidade, reflete-se num homem circunspeto, de barba e cabelos grisalhos, de ombros curvados e destituído de qualquer sinal de alegria. Até hoje, a cada manhã, visita os túmulos da mulher e do filho no cemitério municipal de Curitiba.

Com todos estes elementos, políticos e privados, Benedito Pires alçou, neste Governo, à condição de homem mais próximo de Roberto Requião. Por afinidade, fidelidade absoluta e onipresença. Na segunda-feira à noite, nos estúdios da rede CNT, pouco antes do programa ''Jogo do Poder'', assessor e governador divergiram sobre uma questão do programa eleitoral do PMDB. Demanda corriqueira, que desabou para súbita gota d'água e levou Benedito a destampar, de uma vez só, a contenção permanente. Rompeu-se ali o dique da mais sólida aliança pessoal, política e operacional dentro da esfera do Palácio Iguaçu no atual Governo. Na mesma hora, mobilizaram-se grupos dos altos escalões para cobrir de panos quentes o que havia restado da explosão mútua. É provável, quase certo, que a convivência volte ao normal.
Mas só o tempo trará a real dimensão dos fatos. Para ao bem ou para o mal.

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