CARTAS PARANAENSES

Caro amigo,
Quem escreve esta é a Angela e eu estou ditando. Eu cuido do roçado e ela da gramática. Até agora deu certo.
Como vai tudo aí no Tocantins? É verdade que a sua fazenda é maior do que a do Osmar? Cuidado, hein, porque o pessoal daqui diz que qualquer pé d'água alaga as terras dele porque comprou na confiança, por falta de tempo de sair de Brasília.
Aqui no Paraná vai tudo bem. Estamos cada vez mais ricos e não devemos nada a ninguém. Como sempre. Desde que me conheço por gente, o povo do Paraná trabalha, paga suas contas e não se rebaixa por verbinha de bosta do Governo Federal. Muito menos por cargos ou ministérios. Nós nos bastamos. Iiih, a Angela não quer escrever ''bosta'' mas eu insisto.
É só lembrar um pouco do passado: demos de graça aquele montão de terra boa para a construção da Usina de Itaipu e, de quebra, perdemos a de Sete Quedas. Por causa disso, em termos de destruição de patrimônio da humanidade, o Paraná está ali com o Talibã do Bin Laden que dinamitou as estátuas de Buda do tamanho de montanhas. E, até hoje, quem ganha ICMs com a venda da energia que produzimos são os paulistas. Mas a maior usina do mundo, onde fica, hein? Aqui, ora bolas!
Na duplicação da BR 376, que vai para Santa Catarina, nem demos confiança para o Governo Federal, dono da estrada. Pagamos tudo do nosso bolso. E, se não fosse isso, os paranaenses ricos não iriam liquidar tudo aqui no nosso litoral para investir em Santa Catarina, como fazem agora. O turismo lá ferve.
Na educação, é a mesma coisa. Nós fundamos e mantemos, com nosso dinheiro, as três Universidades - Londrina, Maringá e Cascavel. É tudo por nossa conta.
Na indústria, vencemos paulistas, catarinenses, gaúchos e até baianos e trouxemos para o Paraná as maiores montadoras de automóveis do mundo que ganharam casa, comida, roupa lavada e isenção de impostos por anos a fio. E os engenheiros e técnicos deles estão aí, ganhando os tubos.
Neste meio tempo, os paranaenses que eram donos de empresas tradicionais como o Bamerindus, Prosdócimo, Hermes Macedo, a Móveis Cimo, Malas Ika, etc,etc, sem apoio nenhum para aguentar o rojão da concorrência, venderam tudo. Quem comprou está no 'bem bão'. A Ángela diz que 'bão' se escreve 'bom' mas eu sou teimoso e mantenho do meu jeito.
Vendemos quase de graça o Banestado para o Itaú, que colocou na rua milhares de bancários do Paraná, reformou as agências e está rachando de ganhar dinheiro aqui. Gente esperta, esta, viu! Até a Copel era para ser passada nos cobres mas o Lerner não teve tempo.
Nossos políticos até já se acostumaram com a riqueza que abunda no Paraná (a Ángela reclama de novo, mas agora sem razão: o abunda é de abundância). Esta você se lembra, porque ainda estava aqui: nossos dois senadores, Requião e Osmar Dias, chegaram a recusar dinheiro do Banco Mundial, veja só, que viria para os municípios. Eu sei, eu sei, cachorro que enjeita osso, pau nele, mas tanto Requião como o Osmar não queriam colocar azeitona na empada do Lerner e, como sabiam que o Paraná é rico, dispensaram o dinheiro. Depois, um deputado mineiro ficou com dó e liberou tudo.
Olha, não há de ser nada. Estamos aqui para resolver tudo, pagar tudo mesmo. Ir bater na porta do Governo Federal, exigir recursos, brigar por cargos, é coisa de políticos paulistas, porque são ricos de verdade, e de políticos nordestinos, porque defendem o que é deles. Nós não, nós estamos aqui de passagem, ficamos uns anos, juntamos uns trocados e subimos para o Mato Grosso, Goiás e para o Norte do Brasil comprar terras e fazer investimentos.
Falando nisso, você já viu o preço daquela fazenda vizinha daí? Na semana que vem estou indo. E de bolso recheado. Nem ladrão acaba mais com o dinheiro que ganhei no Paraná.
Com apreço,
Ridivaldo, de Floraí,PR

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