RUTH BOLOGNESE
Cartas Paranaenses
Prezado Rob,
Escrevo porque o uso do telefone aqui é muito controlado. Tentei conversar com você na Granja, no jantar da última sexta-feira, mas depois que o padre passou cavalgando a avestruz, não houve mais clima. Na (belíssima) exposição dos esquizofrênicos no Museu Niemayer também não deu porque você estava muito concentrado.
Escrevo, também, porque tantos anos de psicanálise, dos dois lados do balcão, e mais o tempo no comando da estiva, me transformaram num adulto sagaz e confiante. A autonomia política prematura que transformou você na estrela política da família não atinge meu ego nem a direção do leme da minha realidade psíquica. Já passou da hora, portanto, de acabar com os cascudos que você me dá na testa quando estou por perto. Às vezes me ocorre que você me soca desse jeito porque ainda cultiva a pseudomutualidade, neurose da primeira infância, quando nos obrigavam a tomar juntos o óleo de fígado de bacalhau e que nos tornou os homens altos, fortes e cabeludos que somos hoje. Nossos adversários, quase todos, já fizeram implantes porque não resolveram, ainda, o trauma da inveja capilar.
Mas, voltemos ao presente: do ponto de vista freudiano clássico, um fato externo traumático, como a derrota na reeleição, por exemplo, pode causar problemas neuróticos em humanos adultos. E minha percepção psicanálitica indica que muita gente já pensa em abandonar o navio do governo e pegar a primeira bóia com as iniciais PDT ou PSDB jogada ao mar por qualquer marujo barbudo e de fala grossa. Os petistas, então, nem conseguem disfarçar os desejos inconscientes e já pensam em pular até sem bóia. É preciso relevar um pouco esta ânsia mal resolvida do PT do Paraná em querer caminhar sem muletas psicológicas. Para quem vive em permanente crise de identidade, entre o ser ou não ser PSDB, como eles, qualquer brisa marinha provoca terremoto.
Falemos de nós dois: somos parte de uma família especial e superior. Nunca desistimos, nem cedemos, nem erramos. Só confiamos uns nos outros. Nossa família mitológica conduz o grande barco do Paraná para um outro nível de consciência coletiva. Se os quase amotinados de sempre dizem que o Paraná, com a atual administração, é uma canoa furada e pode se transformar num desastre como o do navio Vicunha, nem se preocupe. Os nossos opositores são uma verdadeira cambada de urubus, que ficam empoleirados no mastro e torcendo contra. Esta rejeição psicótica não deve nos atingir!
Agora, deixe de lado a fixação irracional no companheiro Chávez, da Venezuela, e preste atenção, que não vou repetir: qualquer ato material de privação, intrusão e crueldade, como a derrota na reeleição, por exemplo, representa uma ameaça para a realidade psíquica familiar. Os empregos públicos que temos são a verdadeira identificação do nosso clã, tal qual a bandeira do país de origem identifica o navio no cais. A perda do poder, meu caro, sempre será a perda das possibilidades.
Acredite, portanto, no conselho deste velho lobo de piscina de iate: é hora de ocuparmos o nosso verdadeiro espaço neste oceano de peixes pequenos e nos tornarmos uma dinastia, onde nossos atuais empregos públicos serão apenas uma triste lembrança plebéia. Você será o Rei e eu, o Príncipe do Canal da Galeta, com plenos poderes. A nossa família vai reinar até o fim dos tempos. E os ratos, todos eles, inclusive estes que moram no pátio do porto e os que circulam próximo ao gabinete, vão abandonar de vez o Grande Navio que é o Paraná.
O nosso eterno lema ''eu sou você, você é eu e juntos somos fortes'' está valendo mais do que container desviado do porto.
Seu sempre fiel,
E. Ribeirão
P.S. - Da próxima vez que vier peça ao enfermeiro para alargar um pouco mais as mangas da camisa. Engordei um pouco aqui e esta posição, de mãos para trás enfiadas nas mangas costuradas, é desconfortável demais quando a camisa fica pequena. Os dedos já estão mais roxos do que casco de navio encalhado.





