Meu querido Álvaro,


Peço-lhe encarecidamente que leia esta até o fim porque, a muito custo, tomei a decisão de colocar nestas mal traçadas linhas toda a minha alma. Chamo-lhe de ''Querido'' e troco o V. Excia, apenas por ''Você'' mas logo, logo V. Excia, (ai meu Deus, como é difícil!) quer dizer, você, vai entender a intimidade. Dizem por aí que mulher quando começa a fazer escalada e mestrado é porque não faz sexo. Coisa mais machista, né Álvaro? Não tenho nada contra quem faz mestrado, mas para mim, a Escola Normal foi suficiente e não fico tentando subir morro por falta ''daquilo''. Sou mais eu, sabe, porque uma mulher de verdade não cede a qualquer um, não.

Nunca me casei, Álvaro, nem cedi a ninguém o que eu tenho de mais precioso. E em tantos anos, só agora juntei coragem para revelar o grande segredo que carrego no peito, ardendo em brasa e fogo. Chegou a minha hora de me libertar, querido! E depois, não adianta nada ficar preservando o que a terra há de comer de qualquer jeito.

Desde mocinha, quando ouvi pela primeira vez sua voz na rádio Atalaia de Maringá, atuando na peça ''Mansão do Ódio'', de sua própria autoria, nunca mais fui a mesma. E até hoje sinto tremedeiras quando você aparece na TV, no intervalo da novela, de capacete ora amarelo, ora azul, andando, correndo, dando ordens, dirigindo tratores pelos campos...ai!ai!ai! Que não me aguento! Decorei frases inteiras dos seus discursos, mas a preferida é aquela da ditadura militar ''a longa noite do arbítrio'' e que você ainda usa, 20 anos depois. Me arrepia até as costelas.

Acompanhei cada fio de cabelo teu implantado, desde o famoso ''Interleice'' com fios de plástico, que viravam fumaça cada vez que as luzes de TV se acendiam, até o cabelo de verdade de hoje, que mudou de lugar. Quanto sacrifício, hein meu querido?

Olha, levei um susto ano passado quando você completou 60 anos, assim, quase de repente. E sem uma ruga no rosto, sem uma mancha, um fio de cabelo branco! O que mudou é que agora você ri sem mover um músculo, como se fios invisíveis segurassem as bochechas. Mas, comparado ao seu irmão, que usa barba branca e cabelo preto, você esta um ''broto''.

Agora, ouvi na rádio que você quer, porque quer, sair candidato de novo ao Governo do Paraná. Não vai ceder espaço nem para o ''Urtigão'', que é sangue do teu sangue. Esta notícia é que me deu coragem para escrever-lhe e fazer uma proposta: deixe esta vida de correrias, ódios, invejas e maldades da política e venha encontrar a felicidade desta que sempre te amou e lhe será fiel e única até a morte. Moro numa cidade pequena aqui do nosso Paraná, calma que só vendo, onde jogo um baralhinho (sem valer dinheiro), vou ao culto todos os domingos e sei fazer um arroz de forno que você nunca comeu igual. Já passei dos 50 sim, mas onde interessa mesmo, aaah...sou muito conservada, Benhê. Zero quilômetro, pegou? Com nossas aposentadorias, a gente vai poder ir de excursão para Campos de Jordão e Poços de Caldas, fazer compras no Paraguai e conhecer os hotéis-fazenda aqui do Norte Pioneiro, que são uma beleza! Como nos últimos anos fiquei (um pouquinho só) mais cheia nos ombros do que nos quadris, não pinto mais o cabelo e só uso vestido larguinho, fresquinho sabe, você também não vai precisar sofrer, para parecer mais jovem. Nem faço questão.

Esqueça a política, bobo, e venha encontrar a companheira ideal para envelhecer em Paz. Te espero!

Com todo meu amor,
Maria de Fátima F. Spocallo ou, para você, apenas ''Mariinha''.

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