Cartas paranaenses

Prezado senador Osmar Dias

É com muita satisfação que lhe escrevo esta. Coloquei a calça rancheira, a camisa xadrez e o chapéu de palha que é pra alembrar bem o nosso passado comum. O vizinho trouxe aquela ''marvada'' pra dar coragem e até fez um cigarrinho com fumo de corda pra deixar o ambiente mais de acordo.

É que, apesar de todo o respeito que a condição de senador da República carece, é preciso colocar alguns pingos nos ''is''. Aqui no Paraná, senador, seu nome impõe respeito e ninguém duvida que é candidato, dos bons, para disputar a parada com o governador Requião, homem sistemático, de muita raposice na política. Se o rumo das coisas continuar como no presente, o sr. ainda vai ter que afracar o forte de sua própria família, e deixar o irmão mais velho a comer poeira na estrada. Mesmo sendo este o Irmão Finório, o mesmo que lhe aprumou os primeiros caminhos da política e que há de dizer, lá na frente: a ingratidão é o defeito que cada um menos reconhece em si. Ou que choca mal quem sai do ninho. E o sr. poderá responder: eu não era o da escolha, era o da sina...
Mas não é de altas estratégias políticas que estamos a prosear aqui e nem convém passar da porta pra dentro de sua família. O que vamos acautelar é o apuro com que o senhor zela para aparecer bem no auto-retrato. E nem está errado porque, para vencer justo, o jeito é não olhar nem ver o inimigo, mas tratar da própria obrigação. Só que, daqui pra riba, sr. senador, maiores perguntas serão feitas e não há cavalo baio que vai lhe conduzir para longe delas.
O eleitor, quando vota, é pactário do eleito. E não deve deixar escapulir nada da memória. Se esquecer, o que é pior do que perder dinheiro, seus adversários vão alembrar porque, para certas coisas, ninguém alcança fechar as portas. E a gente sabe mais, de um homem, é o que ele esconde. Assim, sr. senador, desde que, nas doideiras da juventude, deixou que os andantes das ruas de Bandeirantes lhe visse o traseiro branco na janela de um Jeep, até os abundantes fios de cabelo preto que, por milagre de poderoso elixir, surgiram já nas maturidades, lhe dando formosura e boa estampa, tudo há de voltar no tempo presente.
E nem Cristo vai tirar o direito do eleitor perguntar por que, no governo do adversário Jaime Lerner, o sr. mais seu colega da Casa Alta, lá de Brasília, o Requião, negaram o chamegão para o Banco Mundial trazer uma boa bolada de recursos para o Paraná. O feitio era maligno não só para o adversário político, mas para o paranaense de mais precisão. Foi um representante das Minas Gerais, de espírito altaneiro, de nome Francelino Pereira, que se levantou, defendeu os brios do Paraná e garantiu os recursos dos cofres estrangeiros. Como pra tudo neste mundo tem pareio de explicação e, se o sr e seu ilustre colega seguraram os recursos porque o Jaime Lerner leiloava o Paraná de cabo a rabo, então já é bom ir ajuntando os papéis para dar o final na empreitada, alinhavando os pormenores.
Tudo desta vida terá que ir para um prato limpo e isso é apenas o início da Quaresma. De modos que, não se aperreie tanto quando surge, num desvio de jornal, uma ou outra pergunta com missão de gateza, para jogar reboliço no passado. Daqui pra frente, senador, para manter o retrato limpo, o sr. terá que cuspir pimenta com pólvora. Se negar fogo, amuar, não sobra nem o caroço. Em política, às vezes, é isso mesmo: tem que se carregar cobras na sacola, sem concessão de matar. Esteja de prontidão.
Muito lhe agradeço, senador, a sua fineza de atenção,
Cordialmente,
Firmino Costas

* Homenagem (mais uma) ao mestre dos mestres, Guimarães Rosa.

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