RUTH BOLOGNESE
Uma ponte e quatro Estados passivos
As imagens daquela ponte imensa, na BR-116, caída sobre as águas da represa Capivari-Cachoeira, desmonta, de cabo a rabo, o discurso oficial do Governo do PT, reprisado minuto a minuto na Globo: o Brasil está crescendo e em 2020 seremos uma grande potência.
É tudo uma grande balela. Que crescimento é este? Na rodovia mais importante do País, a ligação do Sul Maravilha, paraíso do agronegócio, com a potência paulista e o Sudeste, um caminhoneiro tem que vencer o próprio instinto de sobrevivência, o mais atávico dos seres vivos, e acelerar ao invés de recuar, para não cair com a família e a carga valiosa numa represa, em plena madrugada. Como é que um País vira potência diante de um fato desses? Com as estradas nestas condições não chegamos nem em São Paulo que dirá em 2020.
Mas o governo do PT faz a parte dele: monta um bom esquema de divulgação (com nosso dinheiro), compra avião novo (idem) para o presidente Lula voar tranquilo em direção a Porto Alegre, e depois para a Suíça, onde vai defender o fim da fome no mundo. Quando passou sobre o Paraná, lá das alturas, Lula deve ter comentado com seus assessores, desfrutando o ar condicionado da aeronave, com cheiro de nova: ''nossa, que estrago,hein?''
Nem o ministro dos Transportes (quem é mesmo o ministro dos Transportes?) se dá ao luxo de explicar quanto tempo a ferrugem leva para derrubar uma estrutura daquelas. Alguém de um órgão de segundo escalão do setor disse, durante a semana, que foi ''uma fatalidade''.
Diante de tanto absurdo, o que espanta mais ainda é a passividade das nossas lideranças sulistas. De prefeitos a deputados, senadores e governadores, a entidades empresariais, todos ficam olhando a ponte estraçalhada e abrem a boca na base do ''ah, é?''
Cadê os governadores do tal Codesul (MT, PR, RS e SC), cujo escoamento da produção também depende da BR-116? Estes governadores se reúnem com frequência, almoçam nos palácios uns dos outros, dizem bobagens para a imprensa e tiram fotografias. Mas na hora do pega pra capar, somem do mapa.
Cadê os fominhas que presidem nossas entidades empresariais, reclamam tanto do Custo Brasil e não conseguem nem cobrar em bloco do governo para, pelo menos, vistoriar as pontes das estradas federais?
Cadê a brabeza do governador Requião, sempre pronto a denunciar injustiças bingueiras e pedágios? E o tal do Movimento Pró-Paraná, onde anda?
Cadê a imprensa que, diante da imagem assustadora da ponte caída, só mostra o ''lado humano'' da tragédia, a historinha do pescador que evitou outras mortes?
Até agora, por incrível que pareça, só o coitado do deputado Zé Domingos Scarpelini, lá de Apucarana, cobrou do Governo Federal a situação da BR-116. O resto é silêncio.
A grande verdade é que os políticos estão ocupados com coisas mais importantes do que a defesa dos interesses dos seus Estados, função para a qual foram eleitos. Visitam suas bases, pensando na próxima eleição. Os empresários estão na praia ou lutando bravamente para reduzir impostos de seus produtos e fazer o Brasil crescer.
E o povo? Ora, o povo deve mais é chamar este motorista que acelerou o caminhão na BR-116 e aprender como agir, com rapidez de super-homem, diante de uma ponte que cai em plena madrugada. Pelo menos assim, vai conseguir salvar a família.





