RUTH BOLOGNESE
Crítica e Credibilidade
No passeio pelas salas brancas e iluminadas do Museu Niemayer, o governador Requião ia mostrando, com orgulho, ao jornalista carioca Hélio Fernandes, os trabalhos dos artistas em exposição e as características da arquitetura genial de Oscar. Era a manhã desta última terça-feira, clara e fria como às vezes são as manhãs de Curitiba em pleno verão. O governador tinha acabado de anunciar, na reunião do secretariado, a criação de um Núcleo de Estudos Estratégicos no Governo do Paraná para debater os problemas brasileiros. Na prática, mais um espaço para expor os equívocos do governo Lula. De terno cinza, afável e tão ''zen'' que na travessia do túnel dentro do Museu, em direção ao grande ''olho'', Requião colocou a mão no meu ombro, naquele gesto contumaz de político, curvou o rosto e comentou, mais pensativo do que afirmativo: ''Sabe, o Lula me disse lá em Brasília: você pode criticar meu Governo à vontade Requião''. Fazia uma reflexão que, se o PT do Paraná se contorce com suas cobranças à la senadora Heloisa Helena, o presidente Lula não está minimamente preocupado com isso.
Com ou sem democracia
A informação, por exclusiva, foi divulgada neste espaço, durante a semana. Mas sabe quando a gente encasqueta com uma frase e ela fica remoendo na cabeça? Pois é. Na manhã de terça-feira caminhávamos pelas salas do Museu mais moderno do Brasil, ao lado de um jornalista de 84 anos mais respeitado pela longa permanência na atividade e pela verve visceralmente contra todo e qualquer governo, do que pela lucidez do pensamento. Um jornalista que veio ao Paraná pago pelo erário, lançou Requião candidato a presidente e terminou sua fala com uma frase, no mínimo, constrangedora: ''A revolução deve ser feita com a democracia, se possível; sem ela se for necessário''. E que, a partir de agora, fará um programa semanal no Rio de Janeiro, as expensas do Governo do Paraná, para difundir as idéias nacionalistas de Roberto Requião.
O passeio terminou sob as 240 mil plaquinhas de alumínio que compõem o visual futurista do grande ''olho'' do Museu Niemayer. Mas a dúvida sobre a tranquila observação de Lula sobre as críticas de Requião permaneceu encasquetada.
Ora, se além de criticar o governo Federal, o governador do Paraná se dispõe a contratar jornalistas para difundir suas idéias pelo Brasil afora, por que isso não preocupa Lula? Por incrível que pareça, a imagem do governador Requião dirigindo um tanque blindado do Exército Brasileiro, divulgada pelos jornais de sexta-feira, trouxe a resposta, num vislumbre.
Com todo o respeito que o protocolo impõe para com um governador constitucionalmente eleito, é impossível não rir diante da expressão zombeteira de Requião, de capacete e protetor de orelhas, afundado dentro do tanque. Diante de tal imagem, ocorreria a alguém que Requião poderia usar o tanque do exército para dar início a uma revolução no Sul?
Aí, sim, foi possível entender porque o presidente Lula bate nas costas do Governador e até o instiga a criticar o Governo do PT: porque Roberto Requião, na política, sempre faz o jogo de si mesmo, mistura críticas procedentes com piadas inconsequentes, decisões corajosas com bobagens sem tamanho. Entre alhos e bugalhos, as críticas ao governo do PT, mesmo procedentes, caem no vazio. É por isso que Lula age como nós, ao ver Requião no tanque blindado do glorioso Exército brasileiro: a arma é de verdade, sim, mas todos sabemos que sozinho, sem saber manejar o canhão e ao lado de soldados rasos, é completamente inofensivo.





